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31 de janeiro de 2009

Palavras Aventureiras V

O – ndi – mba


At Sex Jan 23, 01:03:00 AM 2009, Denudado said…

(...)a palavra mbondo não tem prefixo do singular, apenas o do plural(...)

Li algures, já não me lembro onde, que a palavra mbondo e todas as outras palavras da mesma classe (é assim que se chama?) têm mesmo um prefixo, o qual não é mais do que a própria nasalação inicial da palavra...

Segundo o autor (uma pessoa muito versada no assunto, se não me falha a memória), mesmo as palavras que não são pronunciadas com a dita nasalação inicial também "possuem" essa mesma nasalação. O que não dá é jeito usá-la com algumas consoantes, isto é, trata-se apenas de uma questão de eufonia (é assim que se diz?). Por exemplo, a palavra hoji (leão em kimbundu) "tem" uma nasalação inicial, só que não dá jeito nasalar a letra H.

O autor lembrava ainda que, se a nasalação inicial não existe em kimbundu para algumas consoantes, ela pode existir para essas mesmas consoantes em outras línguas bantas, dando como exemplo a letra P, que não é nasalada nunca em kimbundu, mas que pode sê-lo em kikongo.


( Comentário a “Palavras Aventureiras V )


O meu caro amigo Denudado tem toda a razão.

Porém, antes de pormenorizar a questão levantada, devo dizer que tudo isto se deve ao meu cavalo de batalha, a nasalação (ou nasalização) da consoante inicial banta.

É um cavalo de batalha por uma razão muito simples: a representação gráfica dessa nasalação tem provocado graves erros de pronúncia do falante português não ilustrado nestas coisas da linguística avançada (e será apenas o português?).

Muitos dos meus leitores conhecem a célebre marca de café Negola. Isso só aconteceu porque se convencionou escrever a palavra ~Gola como NGola.

Os amantes do futebol lembram-se bem de um futebolista congolês que passou pelos relvados portugueses, a quem os locutores da especialidade chamavam Nedinga. Pois o nome do senhor é ~Dinga.

Temos também – e exemplarmente – o sempre presente erro do topónimo Negaje, cidade da província angolana do Uije, que continua assim chamada… e assim continuará porque este é o tipo de erro Histórico sem emenda possível. O mesmo não aconteceu, felizmente, com o Angaje dos Dembos. [1]

Imaginem se Angola se chamasse, hoje, Negola!

Como disse, tudo isto deriva da representação gráfica da nasalação. Fixemos, em primeira análise, que nasalação é o acto de tornar nasal um som, uma palavra, ou a própria voz. Desta forma as palavras pronunciam-se “com o véu palatino abaixado total ou parcialmente, permitindo que uma parte do ar pulmonar saia pelas fossas nasais, produzindo aí uma ressonância.” (Houaiss)

Quem disser que o português não sabe nasalar as consoantes, não está a ser inteiramente correcto. Na língua portuguesa há duas consoantes nasais, precisamente o M e o N, como em cama e em cana; mas, também, como em banho, caso ligeiramente próximo do banto, mas não usualmente inicial. Portanto, os portugueses sabem muito nasalar. Mas não tanto quanto os bantos. Os portugueses não conseguem nasalar o B (~Banze, filtro do amor), o D (~Dende, fruto do dendezeiro) , o F (~Fumu, fidalgo do Congo), o G (~Gana, senhor ou senhora), o J (~Jimbu, búzio), o K (~Khala, água pura), o P (~Puisa, maré), o T (~Themo, flor), o V (~Vula, maré), e o Z (~Zimbu, búzio). [2]

Aqui bate o ponto: o M e o N [3] (que eu substituí por til), antepostos aos grafemas indicados, não são a nasal de si próprios – nasalam, sim, as consoantes que se lhes seguem.

Conclui-se portanto que os tiranos M e N podem bem ser substituídos pelo til, por um traço vertical, por uma barra horizontal, por um asterisco ou por outro sinal qualquer. Quero com isto dizer que aquelas duas consoantes são grafemas contingentes e deveriam ser um simples sinal diacrítico. O sinal diacrítico, muito embora haja quem use chamar-lhe grafema, não passa disso – um sinal sem vida própria.

Falemos então da questão levantada por Denudado.

Em 1851 o bibliotecário do governador da cidade do Cabo, Wilhelm Bleek, estudioso das línguas bantas, descobriu as regras da prefixação dessas línguas, propondo 16 [4] “géneros” (como lhes chamou). Em 1856 o número aumentou para 18. Nesta classificação Bleek inclui o prefixo ou “género” N- (classe 9). (d'Andrade)

De igual forma procederam, por exemplo, Guthrie (1967, 19 classes, N- nas classes 9 e 10) e Meeussen (1969, 23 classes, N- nas classes 9 e 10)

Refere d’Andrade na ob.cit., anotando as diferenças de classificação entre Bleek e Guthrie:
“ […] o prefixo N-, (consoante nasal cujo ponto de articulação é igual ao da consoante seguinte)”.

Quanto a mim Bleek, Guthrie, Meeussen e outros cometem um erro monumental: o que é verdadeiramente nasal em nZambi ou ~Zambi (Deus), não é o N mas o Z.

Aqui está o motivo pelo qual eu não posso concordar com a transformação do sinal de nasal, o N, em prefixo.

“A linguística africana, propriamente dita, não existe. Existe sim a linguística que estuda a faculdade de linguagem humana, qualquer que seja a língua utilizada.” (d’Andrade)

Assim sendo:

Afixos são morfemas usados na formação ou derivação das palavras. Designam-se Prefixos se antepostos ao radical, raiz ou semantema, Infixos se dividem a palavra em duas partes descontínuas e Sufixos quando pospostos.

Acho que o acto de nasalar não pode ser considerado um Prefixo. Nem sequer Infixo ou Sufixo, porque mesmo aí – podendo, com normalidade, tomar a forma de M e Nnão têm vida própria para além da consoante a que servem de muleta. Seria, em termos simples, o mesmo que considerar o N, da palavra Caminho, um infixo.

Quem me dá razão? Pelo menos Óscar Ribas, o maior vulto de sempre da Cultura Angolana. Ribas, justificando a inutilidade destes M e N, ignora-os na ordenação alfabética. A palavra nDele (alma de pessoa falecida), por exemplo, está colocada na ordem das palavras iniciadas por D. Como deve ser!

Para terminar, falemos de outros pontos (do mesmo) focados por Denudado:

– Em Hoji (leão), não há nasal alguma. O que acontece é que, nas línguas bantas, o H é sempre aspirado o que, convenhamos é como que o oposto de nasalação. A representação do fonema NH é, por isso, outro problema não resolvido. Há quem escreva Olunyaneka e Kwanyama, quando eu escrevo Olunhaneka e Kwanhama. É uma excepção que promovo, uma vez que é essa a forma mais inteligível para os portugueses.

– É verdade que o quicongo nasala o fonema P, coisa que não acontece com o quimbundo – (eis alguns exemplos, pela ordem quicongo – quimbundo– português, de palavras com o mesmo significado):

~Pangi – Pange – irmão(ã)
~Paxi – Paxi – angústia, pena, sofrimento
~Polo – Polo – cara, face, aspecto
~Ponda – Ponda – faixa, cinto.

Este pormenor, no entanto, não é justificação seja para o que for. Uns nasalam umas consoantes, outras nasalam outros e alguns outros, ainda, fazem aquilo que fez o português antigo para chegar a Imbondeiro – acrescentam uma vogal à nasalação, como no Zulo e no Txilungu (Zambia).

Não nos admiremos e lembremo-nos que acontece o mesmo no Olunhaneka, no Umbundu, no Kwanhama, no Txihelelo. E não nos esqueçamos que, mesmo nestes casos, o que é nasal é a consoante:

Ondimba, coelho » O – ndi – mba.



admário costa lindo



bibliografia:
d’ANDRADE, Ernesto. Línguas Africanas, Breve Introdução à Fonologia e à Morfologia, A. Santos, Lisboa, 2007.
HOUAISS e Mauro de Salles Villar, António / Instituto António Houaiss. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Global Notícias Publicações, Lisboa, 2005.
RIBAS, Óscar. Dicionário de Regionalismos Angolanos, Contemporânea Editora, Matosinhos, 1997.

notas:
[1] Angaje é sinónimo de Dembo, o natural da região do mesmo nome, a N do Cuanza.
[2] Os exemplos são em Kimbundu, excepto os das letras F, P e ZKikongoK e TOlunhaneka.
[3] Cf. as regras do Alfabético Fonético Internacional, o M nasala B, F, P e V; o N nasala as restantes.
[4] Bleek considera (como outros sucessores seus) as classes independentes do número; se considerarmos o sistema de classificação dependente da dicotomia singular-plural, teremos que dividir por dois o número de géneros de Bleek.

1 comentário:

Denudado disse...

Grande lição, meu caro Admário! E obrigado pela referência à minha pessoa. Peço-lhe desculpa pela falta de rigor da minha intervenção, mas acontece que, ao falar sobre estes assuntos, estou a meter a minha foice em seara alheia: a minha formação é na área das Ciências e não na das Letras.

Insistindo em meter o meu nariz em matéria que não é da minha especial competência, atrevo-me a fazer uma correcção à seguinte afirmação que está contida na sua nota [1]:

(...) Dembo, o natural da região do mesmo nome, a N do Cuanza.
(...)


O nome Dembo, na verdade, não designa o natural da região do mesmo nome, a qual é constituída, tanto quanto julgo saber, pelo município dos Dembos propriamente dito, cuja sede se chama Quibaxe e que pertence à província do Kwanza-Norte, e pelo município de Nambuangongo, que fica na província do Bengo, além de algumas franjas de municípios vizinhos, como o do Dange (cuja sede é Quitexe), na província do Uíje.

Dembo é o nome dado aos detentores da autoridade tradicional máxima na região referida, os quais são herdeiros dos soberanos de antigos estados independentes minúsculos, resultantes de uma separação do reino do Congo. Os dembos, por conseguinte, não reconhecem a autoridade de nenhum rei, sendo reis eles mesmos. Há vários dembos na região que tomou o seu nome, sendo que o dembo de Nambuangongo é, talvez, o mais poderoso e influente de todos eles.

Atrevi-me a fazer esta rectificação, porque eu mesmo estive na região dos Dembos.

Um abraço