bandeiraAngola

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Julho 24, 2009

ArtHaria, Nova Página

Surgiu uma nova página no ArtHaria, com a pintura de a. costa lindo.


Esta página está ainda em construção, mas pode ser visitada seguindo as setas »»»


Com este suplemento a anterior página deste autor »»» onde haviam sido publicados os Esboços de Pintura, deixou de comportar estas postagens passando a contemplar apenas as obras de Fotografia e Pintura Digital.

Junho 05, 2009

Prémio Camões 2009



O júri do Prémio Camões 2009 - Marco Lucchesi e Ruy Espinheira (Brasil), José Seabra Pereira e Helena Buescu (Portugal), Corsino Fortes (Cabo Verde) e Luiz Carlos Patraquim (Moçambique) - distinguiu este ano o escritor cabo-verdiano Arménio Vieira. [»»]



Arménio Adroaldo Vieira e Silva, escritor, jornalista e professor, nasceu a 29 de Janeiro de 1941 na cidade da Praia. Tem colaboração dispersa por Seló - folha dos Novíssimos, Boletim de Cabo Verde, Vértice, Raízes, Ponto & Vírgula, Fragmentos e Sopinha de Alfabeto.



Publicou 4 livros - “Poemas” (1981), “O Eleito do Sol” (1990),”'No Inferno” (1999) e “MITOgrafias” (2006). No prelo está a obra "O Poema, a Viagem e o Sonho", que deverá ser publicada este ano.



Arménio Vieira, o primeiro cabo-verdiano a ser contemplado com o Prémio Camões, que não gosta do poder nem “de pessoas que representam o poder” [»»] diz que, com os 100 mil euros do prémio, agora “[…] se calhar vou ter pela primeira vez na vida uma bicicleta, porque nunca tive bicicleta.” [»»]



E perguntam-nos:
- sois homens?
Respondemos:
- animais de capoeira.
Dizem-nos:
- bom dia.
Pensamos:
lá fora...


[»»]




admário costa lindo

Fevereiro 12, 2009

Correntes d'Escritas X




Teve iníco ontem, na Póvoa de Varzim, a 10ª edição do Correntes d'Escritas, com a atribuição do Prémio Literário Casino da Póvoa à obra A Moeda do Tempo de Gastão Cruz”.
O autor tem “mantido sempre uma grande qualidade, equilibrado a tendência para a liberalidade ou contenção verbal dos seus primeiros livros com um maior alargamento expressivo” e verifica-se nesta obra que “o enraizamento vivencial se orienta para uma maior amplitude de sentidos, aliada a um grande domínio formal,” diz.se na Declaração de Voto.

O Prémio Literário Correntes d’Escritas/Papelaria Locus, destinado a jovens entre os 15 e os 18 anos, distinguiu o poema Geometria das Sombras de Ophelia Nery, pseudónimo de Tatiana Vanessa Fernandes Bessa, de Vila das Aves.

Atribuído este ano pela primeira vez e dirigido às escolas e aos alunos do 4º ano do ensino básico, o Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes d'Escritas Porto Editora ficou assim distribuído:

1º Prémio: Um Susto e Um Presente – Palmela;
2º Prémio: A Aventura de Natal do Quico – Santa Maria da Feira;
3º Prémio: O Menino e o Sonho – Amadora.


[Ler mais]


Acompanhe o Correntes passo a passo [aqui].


admário costa lindo

Fevereiro 02, 2009

Palavras Aventureiras VI

Dembos


Os cafés, tanto o conteúdo quanto o continente extenso, podem ser oportunidade para uma conversa substantiva ou um fútil desperdício de tempo. Tudo depende da companhia. Na internet passa-se o mesmo, com a variante da anulação de distâncias e a enorme diversidade de interesses que se encontra frente a um computador.

Vem este intróito a propósito das últimas aventuras loquazes provocadas por Denodado, um amigo do Angola Haria desde o primeiro momento.

No comentário que fez ao artigo anterior esclarece, com propriedade e conhecimento, que “o nome Dembo, na verdade, não designa o natural da região do mesmo nome, a qual é constituída, tanto quanto julgo saber, pelo município dos Dembos propriamente dito, cuja sede se chama Quibaxe e que pertence à província do Kwanza-Norte, e pelo município de Nambuangongo, que fica na província do Bengo, além de algumas franjas de municípios vizinhos, como o do Dange (cuja sede é Quitexe), na província do Uíje” e que o nome Dembo é “dado aos detentores da autoridade tradicional máxima na região referida, os quais são herdeiros dos soberanos de antigos estados independentes minúsculos, resultantes de uma separação do reino do Congo.”

Só quem ama verdadeiramente Angola, muito para lá das paisagens idílicas, conhece a História daquela terra. Em Portugal pouca gente sabe que, no tempo daqueles outros senhores, em Angola quem se interessasse pela sua História e por todos os outros aspectos do conhecimento – etnológicos, geográficos, zoológicos, botânicos, arquitectónicos – tinha que ir em sua busca, porque nas escolas ensinavam-nos as serras de Portugal, os rios de Portugal, os caminhos-de-ferro de Portugal, os portos de Portugal, mas de Angola… nada! Talvez pensassem que os matumbos tinham mais era que olhar para céu, para as águas, para os muxitos, para os montes e esperar que se despenhasse a sabedoria aos trambolhões. Ou cadavez tinham medo de nós! Porque sabiam que só quem conhece verdadeiramente pode amar. Aqueles que apenas mastigam o supérfluo e deixam escapar o suco por entre os dedos podem, quanto muito, ter apenas um devaneio amoroso.

Em Nova Lisboa, durante o tempo de tropa, convivi com um amigo muito folgazão, que fazia de tudo para evitar que aquele nefasto período das nossas vidas fosse levado com muita sisudeza. Demo-nos bem com essa postura. Era conhecido por Quibaxe, o nome da sua terra e para mim ficou sendo, para sempre, o Quibaxe. O único convívio que tivemos foi durante o tempo de instrução, mas consigo recordar este episódio, com pormenores vívidos que não vou aqui descrever, trinta e oito anos depois. E esta particularidade, de se dar o nome da terra a pessoas e vice-versa, vai fazer-nos compreender o que vou analisar de seguida.

Tudo o que Denodado escreveu consubstancia um grande conhecimento da região. Nada tenho a rectificar. Irei apenas acrescentar outros pormenores.

Dei a esta série de artigos o título “Palavras Aventureiras” exactamente porque é disso que se trata: a aventurosa vida das palavras – ab aeterno.

A ciência dessa característica dos vocábulos e expressões – a variabilidade de significação durante períodos distintos – é a semântica. Por mais comuns que sejam, ou por isso mesmo, eles e elas têm personalidade e história próprias, pese embora os maus-tratos que lhes damos muitas vezes. Não merecem essa afronta porque, bem vistas as coisas, são dos nossos melhores amigos; tanto, que tudo fazem para nos obsequiar, incluindo a mudança.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades
.” (Camões)

Há duas formas de derivação das palavras: a evolução morfológica – referente à grafia – e a evolução semântica – do significado ou sentido. A evolução semântica ocorre (muitas vezes a par da morfológica) na passagem de um vocábulo de uma língua para outra – como do Latim para o Português, como das línguas Bantas para o Português. Mas acontece também dentro da própria Língua. Há termos que têm hoje uma acepção diferente da original. A significação inicial pode perder-se, mas pode também manter-se a par do(s) novo(s) significado(s).

Ministro – não é necessário escolher antropónimo porque todos são iguais nesta faceta – já não é o que era: significava em Latim (Ministru) aquele que serve ou ajuda, o criado ou servente, o escravo. Hoje o Ministro é o membro de um Governo (alguns dizem-se ainda escravos do ministério), a quem incumbe um cargo ou função. É também o sacerdote ou pastor de uma religião. Os dicionários registam ainda as acepções auxiliar, criado e executor.

Estilo é uma palavra com uma história sui generis. Eis a sua evolução semântica:

instrumento de escrita > escrita > composição > forma especial de escrever > maneira de se exprimir > característica artística.

Um dos suportes da escrita, entre os Romanos, para além da folha de papiro e do pergaminho, era uma pequena tábua encerada. Para gravar as palavras sobre a tábua utilizavam o Stilus, um ponteiro metálico com duas pontas, uma aguçada para escrever e outra achatada para rasurar. Evoluiu para o português Estilo, vocábulo que passou mais tarde a designar o próprio trabalho que fazia, a Escrita. De escrita evoluiu para Composição, aquilo que se consegue com a escrita. Não contentes, os homens deram-lhe novo conteúdo e passou a designar a forma ou maneira própria de um escritor redigir as suas obras. Hoje apresenta algumas novas evoluções/extensões: forma de falar ou discursar, feição própria da expressão de um artista, costume, praxe, hábito, prática.

Vejam no que deu o ponteiro stilus: de instrumento de escrita chegou a feição própria ou particular de uma obra de arte.

A palavra Dembo derivou – mais correctamente, adaptou-se morfologicamente – do termo quimbundo ~Dembu (pl. ji–), “título que usavam os capitães subordinados do Rei do Congo e seus parentes e que, na organização fundada pelos portugueses, exerciam, nas capitanias, a autoridade militar e administrativa.” (Galvão).

Dembo não fugiu à evolução semântica. “O título passou depois para os chefes indígenas, como equivalente de Soba noutras regiões e, por fim, abrangeu todo o povo e toda a região.” (Galvão).

Outras acepções para Dembo (cf. Ribas) :

– s.cd. Natural da região dos Dembos, ao norte do rio Cuanza;
– s.m. Dialecto falado nessa região;
– s.m.pl. População dessa área, pertencente ao grupo étnico dos Quimbundos;
– adj. Relativo a essa população;
– s.m. Autoridade suprema tradicional, da região dos Dembos; Régulo; Soba que tem sob a sua jurisdição outros sobas.

Significados diversos do tema tratado: (cf. Ribas)
– s.m. Medicamento externo gorduroso para fricção;
– (kimb. ~Dembu) Espírito feminino que, sob a dependência de Lemba (entidade espiritual feminina que promove a procriação), a auxilia na sua missão.

Como vimos, “Dembos eram os chefes, dembos são os súbditos e Dembos é a região.” (Galvão).


admário costa lindo







bibliografia:
CAMÕES, Luis Vaz de. Obras Completas, Edição Comemorativa do IV Centenário da Morte do Poeta, Lírica I, Editorial Verbo, Lisboa, 1980.
GALVÃO, Henrique. Outras Terras, Outras Gentes, Livraria Francisco Franco, Lisboa, 1942.
RIBAS, Óscar. Dicionário de Regionalismos Angolanos, Contemporânea Editora, Matosinhos, 1997.

abreviaturas:
adj. = Adjectivo.
cd = Comum de dois.
cf. = Conforme, de acordo com.
ji– = Prefixo.
Kimb. = Kimbundu.
m. = Masculino.
pl. = Plural.
s. = Substantivo.

Janeiro 31, 2009

Palavras Aventureiras V

O – ndi – mba


At Sex Jan 23, 01:03:00 AM 2009, Denudado said…

(...)a palavra mbondo não tem prefixo do singular, apenas o do plural(...)

Li algures, já não me lembro onde, que a palavra mbondo e todas as outras palavras da mesma classe (é assim que se chama?) têm mesmo um prefixo, o qual não é mais do que a própria nasalação inicial da palavra...

Segundo o autor (uma pessoa muito versada no assunto, se não me falha a memória), mesmo as palavras que não são pronunciadas com a dita nasalação inicial também "possuem" essa mesma nasalação. O que não dá é jeito usá-la com algumas consoantes, isto é, trata-se apenas de uma questão de eufonia (é assim que se diz?). Por exemplo, a palavra hoji (leão em kimbundu) "tem" uma nasalação inicial, só que não dá jeito nasalar a letra H.

O autor lembrava ainda que, se a nasalação inicial não existe em kimbundu para algumas consoantes, ela pode existir para essas mesmas consoantes em outras línguas bantas, dando como exemplo a letra P, que não é nasalada nunca em kimbundu, mas que pode sê-lo em kikongo.


( Comentário a “Palavras Aventureiras V )


O meu caro amigo Denudado tem toda a razão.

Porém, antes de pormenorizar a questão levantada, devo dizer que tudo isto se deve ao meu cavalo de batalha, a nasalação (ou nasalização) da consoante inicial banta.

É um cavalo de batalha por uma razão muito simples: a representação gráfica dessa nasalação tem provocado graves erros de pronúncia do falante português não ilustrado nestas coisas da linguística avançada (e será apenas o português?).

Muitos dos meus leitores conhecem a célebre marca de café Negola. Isso só aconteceu porque se convencionou escrever a palavra ~Gola como NGola.

Os amantes do futebol lembram-se bem de um futebolista congolês que passou pelos relvados portugueses, a quem os locutores da especialidade chamavam Nedinga. Pois o nome do senhor é ~Dinga.

Temos também – e exemplarmente – o sempre presente erro do topónimo Negaje, cidade da província angolana do Uije, que continua assim chamada… e assim continuará porque este é o tipo de erro Histórico sem emenda possível. O mesmo não aconteceu, felizmente, com o Angaje dos Dembos. [1]

Imaginem se Angola se chamasse, hoje, Negola!

Como disse, tudo isto deriva da representação gráfica da nasalação. Fixemos, em primeira análise, que nasalação é o acto de tornar nasal um som, uma palavra, ou a própria voz. Desta forma as palavras pronunciam-se “com o véu palatino abaixado total ou parcialmente, permitindo que uma parte do ar pulmonar saia pelas fossas nasais, produzindo aí uma ressonância.” (Houaiss)

Quem disser que o português não sabe nasalar as consoantes, não está a ser inteiramente correcto. Na língua portuguesa há duas consoantes nasais, precisamente o M e o N, como em cama e em cana; mas, também, como em banho, caso ligeiramente próximo do banto, mas não usualmente inicial. Portanto, os portugueses sabem muito nasalar. Mas não tanto quanto os bantos. Os portugueses não conseguem nasalar o B (~Banze, filtro do amor), o D (~Dende, fruto do dendezeiro) , o F (~Fumu, fidalgo do Congo), o G (~Gana, senhor ou senhora), o J (~Jimbu, búzio), o K (~Khala, água pura), o P (~Puisa, maré), o T (~Themo, flor), o V (~Vula, maré), e o Z (~Zimbu, búzio). [2]

Aqui bate o ponto: o M e o N [3] (que eu substituí por til), antepostos aos grafemas indicados, não são a nasal de si próprios – nasalam, sim, as consoantes que se lhes seguem.

Conclui-se portanto que os tiranos M e N podem bem ser substituídos pelo til, por um traço vertical, por uma barra horizontal, por um asterisco ou por outro sinal qualquer. Quero com isto dizer que aquelas duas consoantes são grafemas contingentes e deveriam ser um simples sinal diacrítico. O sinal diacrítico, muito embora haja quem use chamar-lhe grafema, não passa disso – um sinal sem vida própria.

Falemos então da questão levantada por Denudado.

Em 1851 o bibliotecário do governador da cidade do Cabo, Wilhelm Bleek, estudioso das línguas bantas, descobriu as regras da prefixação dessas línguas, propondo 16 [4] “géneros” (como lhes chamou). Em 1856 o número aumentou para 18. Nesta classificação Bleek inclui o prefixo ou “género” N- (classe 9). (d'Andrade)

De igual forma procederam, por exemplo, Guthrie (1967, 19 classes, N- nas classes 9 e 10) e Meeussen (1969, 23 classes, N- nas classes 9 e 10)

Refere d’Andrade na ob.cit., anotando as diferenças de classificação entre Bleek e Guthrie:
“ […] o prefixo N-, (consoante nasal cujo ponto de articulação é igual ao da consoante seguinte)”.

Quanto a mim Bleek, Guthrie, Meeussen e outros cometem um erro monumental: o que é verdadeiramente nasal em nZambi ou ~Zambi (Deus), não é o N mas o Z.

Aqui está o motivo pelo qual eu não posso concordar com a transformação do sinal de nasal, o N, em prefixo.

“A linguística africana, propriamente dita, não existe. Existe sim a linguística que estuda a faculdade de linguagem humana, qualquer que seja a língua utilizada.” (d’Andrade)

Assim sendo:

Afixos são morfemas usados na formação ou derivação das palavras. Designam-se Prefixos se antepostos ao radical, raiz ou semantema, Infixos se dividem a palavra em duas partes descontínuas e Sufixos quando pospostos.

Acho que o acto de nasalar não pode ser considerado um Prefixo. Nem sequer Infixo ou Sufixo, porque mesmo aí – podendo, com normalidade, tomar a forma de M e Nnão têm vida própria para além da consoante a que servem de muleta. Seria, em termos simples, o mesmo que considerar o N, da palavra Caminho, um infixo.

Quem me dá razão? Pelo menos Óscar Ribas, o maior vulto de sempre da Cultura Angolana. Ribas, justificando a inutilidade destes M e N, ignora-os na ordenação alfabética. A palavra nDele (alma de pessoa falecida), por exemplo, está colocada na ordem das palavras iniciadas por D. Como deve ser!

Para terminar, falemos de outros pontos (do mesmo) focados por Denudado:

– Em Hoji (leão), não há nasal alguma. O que acontece é que, nas línguas bantas, o H é sempre aspirado o que, convenhamos é como que o oposto de nasalação. A representação do fonema NH é, por isso, outro problema não resolvido. Há quem escreva Olunyaneka e Kwanyama, quando eu escrevo Olunhaneka e Kwanhama. É uma excepção que promovo, uma vez que é essa a forma mais inteligível para os portugueses.

– É verdade que o quicongo nasala o fonema P, coisa que não acontece com o quimbundo – (eis alguns exemplos, pela ordem quicongo – quimbundo– português, de palavras com o mesmo significado):

~Pangi – Pange – irmão(ã)
~Paxi – Paxi – angústia, pena, sofrimento
~Polo – Polo – cara, face, aspecto
~Ponda – Ponda – faixa, cinto.

Este pormenor, no entanto, não é justificação seja para o que for. Uns nasalam umas consoantes, outras nasalam outros e alguns outros, ainda, fazem aquilo que fez o português antigo para chegar a Imbondeiro – acrescentam uma vogal à nasalação, como no Zulo e no Txilungu (Zambia).

Não nos admiremos e lembremo-nos que acontece o mesmo no Olunhaneka, no Umbundu, no Kwanhama, no Txihelelo. E não nos esqueçamos que, mesmo nestes casos, o que é nasal é a consoante:

Ondimba, coelho » O – ndi – mba.



admário costa lindo



bibliografia:
d’ANDRADE, Ernesto. Línguas Africanas, Breve Introdução à Fonologia e à Morfologia, A. Santos, Lisboa, 2007.
HOUAISS e Mauro de Salles Villar, António / Instituto António Houaiss. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Global Notícias Publicações, Lisboa, 2005.
RIBAS, Óscar. Dicionário de Regionalismos Angolanos, Contemporânea Editora, Matosinhos, 1997.

notas:
[1] Angaje é sinónimo de Dembo, o natural da região do mesmo nome, a N do Cuanza.
[2] Os exemplos são em Kimbundu, excepto os das letras F, P e ZKikongoK e TOlunhaneka.
[3] Cf. as regras do Alfabético Fonético Internacional, o M nasala B, F, P e V; o N nasala as restantes.
[4] Bleek considera (como outros sucessores seus) as classes independentes do número; se considerarmos o sistema de classificação dependente da dicotomia singular-plural, teremos que dividir por dois o número de géneros de Bleek.

Janeiro 22, 2009

Onde anda a Polícia ?

Hoje, mal abri a newsletter do Correio da Manhã, apanhei com este encharcado:

22 Janeiro 2009 - 02h00
Chefs de culinária e historiadores denunciam falta de folhas em pastas
Torre do Tombo: Receitas conventuais perdidas

António Silva, filho do cozinheiro chef Silva, herdou o gosto pela culinária, principalmente pela pastelaria. Apaixonado pelos doces conventuais, decidiu pesquisar na documentação dos conventos, que está depositada na Torre do Tombo, os segredos da sua confecção. Um mês depois de ter iniciado a pesquisa ficou desiludido. A maior parte das receitas ancestrais tinha desaparecido. "Vi quase todos os conventos de Lisboa e nas listagens de alguns vinham referências aos receituários, mas depois encontrei as pastas vazias", contou, sublinhando que tinha consultado livros que na bibliografia referiam como fonte a documentação original.

Dos comentários à notícia destaco este (andará longe da verdade?):

22 Janeiro 2009 - 12h28 andre couto
Vejam nos sites de leiloes, com sorte acham nos manuscritos ou antiguidades!


Receitas conventuais perdidas ?


Onde anda a Polícia?

Haverá investigação?

E, caso haja, como terminará?

Quem zela pelo acervo da Cultura Portuguesa?

Que país é este?

São questões que gostaria de ver respondidas.

admário costa lindo

Janeiro 20, 2009

Palavras Aventureiras IV

Tenho bué de frio



É verdade que tenho, mesmo. Devo confessar que sou um friorento irrecuperável. Diz o meu irmão que faz as vezes de kabasa, [1] “nem parece que nasceste cá!” Quem nos acompanha de perto apercebe-se rapidamente que, efectivamente, nascemos com os azimutes trocados: eu, poveiro, deveria ter nascido em Angola e ele, angolano, é quem mais parece poveiro – nessas coisas do frio e assim! Por isso ando sempre, de inverno e mais, com bué de frio.

Alguns estudiosos referem a palavra francesa Beaucoup [2] como raiz do termo Bué.

A linguagem popular angolana é, reconhecidamente, pela lei do menor esforço empregada na eliminação simultânea de vários elementos de uma palavra ou expressão.

Analisando esta derivação teremos,

beaucoup > bôcu (forma fonética) > bô (apócope).

Uma norma popular, a que chamo a norma rítmica, é a que permite a duplicação da sílaba final de uma palavra, ou o acrescento (paragoge) de um e tónico, aberto (é) ou fechado (ê), por vezes prolongado, ou as duas formas em simultâneo, com o intuito de lhe dar uma expressão carinhosa ou rítmica, como em

Angola > Angolê

e no celebérrimo

Monangamba > Monangambééé, de António Jacinto e Ruy Mingas.

Desta norma podemos estabelecer a evolução completa:

beaucoup > bôcu > bô > boé > bué (metafonia).

A minha dúvida quanto a esta etimologia deve-se à ocorrência temporal. Diz-se que o termo teria surgido depois da chegada a Angola dos refugiados idos do Zaire, após a independência, em finais de 1975 ou princípios de 1976, portanto.

O meu primeiro contacto com a gíria luandense deu-se em 1972, quando abalei do sul para o norte de Angola, em situação laboral. Aquela linguagem atraiu-me de imediato e passei a estudá-la mas, infelizmente, todos os escritos que acumulei se perderam na voragem da guerra, devido ao deambular constante entre Uije, Porto Alexandre, Luanda e Portugal. Não tenho, portanto, documentos de análise para poder justificar que

escutei este termo bué de vezes, desde 1972.

É inquestionável que o termo Bué nasceu na gíria Calú (de Kaluanda, o natural de Luanda), uma linguagem popular, por vezes caracterizada como linguajar marginal. As palavras e expressões desta gíria nascem de corruptelas/derivações/evoluções do Português, a língua oficial e do Kimbundu, a língua étnica da região, mas a linguagem contém também termos intrínsecos e expressões idiomáticas (incluindo, actualmente, palavras/expressões de língua inglesa, maioritariamente norte-americanas) de grupos marginais com características de organização secreta ou similar. A existência do calú justifica-se, ou justificou-se, por duas ordens de razões:
1ª - resistência cultural ao colonialismo e
2ª – hermetismo de auto-protecção/identidade dos referidos grupos.

RuiRamos, que sabe disto como poucos, também considera que a palavra “nada tem a ver com o kimbundu”. [3] Tavez tenha razão,

mas vejamos, atendendo sempre a que a evolução fonética e a evolução semântica podem ocorrer simultaneamente:

1. mbuwe / mbwe, abundância ou fartura; confesso que desconhecia esta forma quimbunda – poderá ser um arcaísmo e os criadores do bué a tenham recolhido dos seus ancestrais; tal como
Rocha, [4] não consegui provas que possam confirmar ou desmentir a sua existência; a existir de facto, é a melhor candidata a mãe do bué;

2. existe em quimbundo o advérbio Buè, sinónimo de , Bèbi e Búebi [5], aonde ou em que lugar ;
3. outro advérbio quimbundo, [6] ou Buí, significa muito ou completamente escuro.

Luanda, pela sua condição de capital, sempre foi uma cidade grandemente cosmopolita. Então, por que não considerar que o termo Bué possa ter sido tomado de outra(s) língua(s), que não o quimbundo? Digo isto porque

4. existe em olunhaneka o radical mBwe [7], que significa cesta grande;

5. muito escuro diz-se mbu /uu/ em umbundo. [8]

Como já antes afirmei, sou de opinião que o significado original nem sempre é determinante. Mas, para isso, é necessário que tenhamos a certeza absoluta da etimologia. Ora, isso está longe de acontecer, no presente caso.

A palavra Bué ou, mais propriamente, a expressão Bué de, é entendida na gíria (hoje alargada, não só a Portugal mas também ao Brasil e a outros países de expressão portuguesa) como - abundante, em grande quantidade, muito, excessivamente, profundamente.

Eu já nem liguei mais à gasosa, fiquei a olhar a estante com bué de fotos da família do Lima.” [9]

Zeca, viste mesmo a carne? Bocados pequenos sebo misturado, mas se cortar aproveita-se aí bué.“ [10]

Eventualmente nenhuma das palavras aqui sugeridas será a raiz de Bué. São, no entanto, pistas para uma tentativa de identificação. Ou nem isso: Bué pode, pura e simplesmente, ser apenas uma invenção do linguajar marginal que,

não obstante,

se internacionalizou.

Penso que a afirmação de J.M. Costa [2] (que pertence à coloquialidade de estratos alargados da população mais jovem portuguesa de zonas suburbanas) foi ultrapassada pela dinâmica da expressão; o próprio também o considerará, porventura. A utilização do termo nos Países de Expressão Portuguesa, com maior incidência em Angola e Portugal, na linguagem coloquial generalizada e na literatura, fez com que a sua primeva suburbanidade seja hoje um mero apontamento histórico.

É por essa razão que não vejo com bons olhos a afirmação de T.A. [11] - que o bué pode ser retirado dos dicionários.

Qu’é qu’é isso meu!? - banzar-se-ia o Jorge. Tás malaico?



O filho do bué


Como justificação de discordância, acrescento três à achega de Rui Ramos – “a língua portuguesa não se constrói só por via erudita desde os tempos dos lusitanos”: [3]

- a condição de razoabilidade e de bom senso é discutível e, quiçá, imensurável por quem quer que seja;

- dicionarizada ou não, eruditismo ou modismo, gíria ou calão, uma palavra pode viver eternamente, não obstante os eruditos, porque a Língua também evolui por via popular.

Um pequeno parêntese: o bué já tem um filho chamado buereré.

Esta derivação (extensão?) poderá estar relacionada com uma característica fonética do quimbundo que atribui ao D duas fonias, de acordo com a região ou o dialecto – tanto pode ser como o D do português digo, ou como o R de aro (razão pela qual o prefixo di também aparece como ri),

como em

Kombaditokua / Kombaritokua (varrição das cinzas, após óbito),

Kitadi / Kitari ou Ditadi / Ritari (dinheiro).

[ Existe uma característica similar, no Umbundo e nas línguas do SW de Angola, que atribui também dois valores, R e L, ao fonema R (ou ao L, como no ovo de Colombo). No final do texto surgirá uma palavra que é um exemplo: Otxiri / Otxili (verdade), como Otxindere / Otxindele (branco, indivíduo de raça branca) ]

Tudo visto, eis então a evolução para buereré:

bué de > bué re > bueré > buereré (norma rítmica).


- Só quem não conhece a história do termo em causa pode partilhar essa afirmação obituária –

– o bué nasceu nos musseques, envergonhado, receoso como santo-e-senha, ganhou o asfalto, chegou à Mutamba, zarpou mar afora pela baía, vadiou na Metrulha, atravessou o Atlântico e ecoa já pelas amazónias da esperança. Ainda assim, da esperança!

Disse você que vai morrer!

Mas de morte morrida… ou de morte matada?

É que, caro senhor, o muadié está a raciocinar em função do português do Putu, e está esquecer o calú!

É uma doença infantil.

A Bíblia


Se bem repararam, tenho citado vários textos do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

A razão é simples: sou, desde sempre, um internauta assíduo daquela que é (não tenho dúvidas) a Bíblia Virtual da Linguística em Português. Esta Bíblia, contrariamente à outra, não justifica dogmas, apresenta formas várias de observar o mesmo e, por isso, temo-nos dado bem assim. Otxiri muene! [12]

Bem-haja João Carreira Bom, por onde quer que ande,
Bem-haja José Mário Costa.


notas e bibliografia:
[1] De acordo, desta vez abro uma excepção: Kabasa /ss/ designa, em quimbundo, o gémeo que nasce em segundo lugar, sendo o primeiro o kakulu. É bom de ver que não somos gémeos, embora possa parecer que sim.
[2] COSTA, José Mário. Bué de…, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 01.02.1997,
[url] http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=348:
“A origem é angolana e já pertence à coloquialidade de estratos alargados da população mais jovem portuguesa de zonas suburbanas. É nestas áreas que se cruzam as maiores influências étnico-culturais das comunidades africanas residentes na área de Lisboa, em particular. Bué é um calão luandense, que tem o significado do «beaucoup» francês, «muito de»: bué de charros, bué de confusão, bué de preconceitos.”
[3] RAMOS, Rui. Ainda a palavra “bué”, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 21.01.2003:
[url] http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=11100:
“parece que os dicionários portugueses agora incluem palavras do calão luandense. Óptimo, isto quer dizer que a língua portuguesa não se constrói só por via erudita desde os tempos dos lusitanos, «bárbaros», romanos, gregos, árabes..”
“quem introduziu esse calão de Luanda (que nada tem a ver com o kimbundu) em Lisboa foram os jovens luandenses”
“Parabéns aos jovens luandenses da diáspora que conseguiram o autêntico milagre de introduzir calão luandense no mais conceituado dicionário português.”
[4] ROCHA, Carlos. O uso de bué (= «muito»), novamente, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 10.11.2006:
[url] http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=18744:
“no Dicionário Etimológico Bundo-Português do P. Albino Alves (1947), encontro a forma mbuwe, que significa «abundância, fartura». Contudo, não consegui confirmar noutras obras se é esta a origem do bué português nem pude saber quais eram as propriedades sintá(c)ticas e semânticas da forma «mbwe».”
Nota: este é o texto (aliás, parte do) publicado no sítio, conforme acesso de 14.01.2009. Fiquei com dúvidas – a palavra é «mbuwe» ou «mbwe»?
[5] MATTA, J. D. Cordeiro da. Ensaio de Diccionario Kimbúndu-Portuguez, Casa Editora António Maria Pereira, Lisboa, 1893.
[6] NASCIMENTO, J. Pereira do. Diccionario Portuguez-Kimbundu, Typographia da Missão, Huilla, 1903.
[7] BONNEFOUX, Pde. Benedicto M. Dicionário Olunyaneka-Português, Missão da Huíla, Sá da Bandeira, 1940.
[8] DANIEL, Rev. Henrique Etaungo. Ondisionalu Yumbundu, Dicionário de Umbundo, Umbundo-Português, Edições Naho, Lisboa, 2002.
[9] ONDJAKI. Os da Minha Rua, Caminho, Lisboa, 2007, p. 20.
[10] MONTEIRO, Manuel Rui. Quem Me Dera Ser Onda, Edições Cotovia, 6ª edição, Lisboa, 1991, p. 49.
[11] T.A. Implementar/Bué, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 11.10.2001:
[url] http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=9390:
“«Bué» é um modismo juvenil, e é bem provável que em futuras edições venha a ser retirado, utilizando-se o único mecanismo de eliminação razoável: o bom senso”
[12] É como se diz em umbundo, nhaneca e outras línguas do SW- É mesmo verdade! ou (expressão genuinamente angolana)
Juro com Deus!


admário costa lindo

Palavras Aventureiras III

Kauha, o ilusionista

Na tradição cultural africana há duas classes de heróis: os Heróis Deificados, divinizados pela grandeza dos seus actos, e os Heróis Fundadores, cuja história explica a origem dos vários reinos e povos.

Reza uma lenda !Kung que Kauha foi o maior ilusionista alguma vez conhecido. Maravilhava o povo com os seus malabarismos e ilusões que, para os pobres mortais, eram feitos apenas ao alcance dos seres imortais. Foi deificado e subiu ao Reino Eterno, que fica muito para lá da Lua. Como Deus, continuou brincalhão. Durante uma visita ao Reino do Efémero, solicitada por um aflito mortal, galhofava ele com tudo e todos quando resolveu descansar à sombra de uma árvore porque, na verdade, os deuses também se cansam. A árvore, incomodada com o conchego de Kauha no seu tronco e sem medir as consequências do acto, resolveu pregar-lhe uma partida. Soltou o maior fruto que gerara e este, qual cabaça gigante, rebentou em cheio na cabeça de Kauha, inundando-o de polpa húmida e peganhenta e inúmeras sementes minúsculas e irritantes. Não sabia a árvore dos maus fígados dos deuses, em vista de certos comportamentos humanos. Kauha levantou-se enfurecido, mirou a árvore de alto a baixo, estendeu as mãos e com os seus divinos poderes arrancou-a, inverteu-a e voltou a plantá-la, mas de pernas para o ar. É por isso que o imbondeiro, assim se passou a chamar a árvore cazucuteira, com a copa enterrada e as raízes ao léu, incha, incha, incha e toma aquele volume todo, tanto que é possível construir uma grande casa dentro do seu tronco, escavacando-o.

Imbondeiro ou Embondeiro?

Para designar em Português a Adansonia digitata, o gigante da flora africana também conhecido por baobá, há duas palavras dicionarizadas, ambas presentes na literatura angolana: Imbondeiro e Embondeiro

- Porque sofre você? Eu não entendo
o motivo do seu pranto...
derrubaram embondeiro,
onde você comeu muita múkua, no gozo
[1]

E depois de Calomboloca, a chuva grossa caindo, o cheiro bom da terra molhada entrando nas narinas, os campos verdes do algodão vigiados pela sanzala de imbondeiros grandes, floridos ainda, sem múcuas pendendo.” [2]

Dizem os entendidos que a única grafia oficial é embondeiro, segundo “o grande Gonçalves Viana”. [3] Eu não concordo, como não concordei com o, também oficial, Cochilar.

O étimo é o vocábulo quimbundo mBondo, que designa a árvore em causa. Vamos tentar entender como mBondo evoluiu foneticamente para Imbondeiro ou Embondeiro.

Convém desde já clarificar um erro cometido por Fernando Fonseca no artigo “ Embondeiro”, publicado no sítio Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. [3] Diz Fonseca a dado passo:

“Nas próprias designações da língua bunda surgem variantes com as sílabas iniciais am (ambundo) e/ou um (umbundo), provenientes, julgo eu, duma nasal inicial diversamente interpretada.”

A verdade daquilo que acontece é a seguinte:

Ao radical mBundu (condição de preto ou de natural de Angola), junta-se o prefixo MU para formação do singular, Mumbundu (preto, natural de Angola) e o prefixo A para a formação do plural, Ambundu (pretos, naturais de Angola) . (4) São as regras da Classe I (que compreende os nomes de entes racionais) de formação dos substantivos em Kimbundu, a língua dos Ambundu.

A sílaba inicial de Ambundu não é am, como refere Fonseca, mas a e a divisão silábica completa da palavra é como segue:

a – mbu – ndu,

pela razão de que o m e o n representam um sinal diacrítico (o til, cuja utilização seria mais consentânea, como já referi em “ o N de Negaje”) e servem para nasalar a consoante que se lhes segue. O m e o n não nasalam o a nem o u, mas sim o b e o d, respectivamente.

O mesmo acontece com Umbundu = U – mbu – ndu (singular) e O – vi – mbu – ndu (plural).

Fonseca diz mais: “Veja-se ainda a grafia ‘Ngola (por Angola), que às vezes se encontra, demonstrativa da instabilidade da vogal nasal reduzida que o ‘n deve representar.”

nGola não é, foneticamente, o mesmo que a versão portuguesa Angola. O n não representa uma (hipotética) vogal nasal instável (an), serve, isso sim, para nasalar a consoante g, coisa difícil de entender por alguns, uma vez que em português não existem consoantes nasais.

A divisão silábica é

nGo – la.

Para melhor entendimento direi que a divisão silábica An-go-la (correcta em Português) será, nestes termos,

A – ngo – la.

Para tentarmos compreender eficazmente a evolução do vocábulo mbondo, consideremos um português antigo chegado a uma sanzala mbundu, apontando para aquelas enormes árvores e indagando o seu nome. [5] A resposta dos angolanos pode ter sido apenas uma, ou várias para melhor se fazerem entender.

Nessa altura, o falante português, em presença de gramática tão estranha (as consoantes nasais e, mais difícil ainda, a pronúncia dessa nasalação) segue o que lhe diz a sua língua materna e sente que necessita de uma prótese no radical africano, uma vogal que, então, nasalará para que o vocábulo fique mais consentâneo com o arranjo fonético a que está acostumado – daqui deriva o erro de Fonseca.

Mas onde vai ele desencantar essa vogal? Não a inventa, não, vai à própria língua africana. E como, se ele não a domina minimamente? Simplesmente pelo ouvir falar, que é assim que ele apreende os novos termos e expressões.



Façamos nós três exercícios de análise.


1º exercício -

Seguindo Rui Ramos no texto “ Imbondeiro ”, do Ciberdúvidas,[5] temos

a expressão ii mbondo, aquele é um mbondo,

ii mbondo > iimbondo > imbondo (crase).



2º exercício

Em quimbundo, pela regra da concordância, faz-se concordar os atributos com o nome que lhe está associado, por meio de prefixos concordantes ou pronominais, derivados dos prefixos nominais.

ex: kinama kiami (a minha perna) e inama iami (as minhas pernas),
dilonga diami (o meu prato) e malonga mami (crase de maami) (os meus pratos);

Para mbondo vamos analisar o plural, cujo prefixo é ji - de “os meus bondos” teremos

jimbondo jiami > jimbondo j’ami > jimbondo jami.

No plural da Classe IX, à qual pertence mbondo, pode omitir-se o prefixo nominal, quando se segue o prefixo concordante ou o genitivo. [6]

jimbondo jami > mbondo jami

O português antigo pode não ter seguido esta regra mas, apenas, ter provocado uma aférese simples,

jimbondo jami > imbondo jami.

Querendo fazer a concordância do singular, teremos

mbondo iami,

mas a palavra mbondo não tem prefixo do singular, apenas o do plural, ji como se viu. Assim sendo, no singular não há lugar à aplicação da regra de concordância, precisamente pela ausência desse prefixo nominal.



Não satisfeitos com os resultados até aqui obtidos, avancemos para o

3º exercício

Há uma terceira hipótese para o surgimento de imbondo:

a aproximação fonética ao vocábulo Imbonde ou Imbondo, vagens, [4] que o português antigo já tinha ouvido algures e que presumiu ser a mesma palavra .

Sobre a derivação/evolução dos vocábulos, para que se não pense que isto não passa de treta, uma vez que o povo não anda de gramática a tiracolo, é bom referir que isso é uma falsa questão - o povo não necessita, absolutamente, de regras. Quando os avoengos lusitanos, na sua prática diária, fizeram evoluir do Latim aquelas que seriam mais tarde as Línguas Galaico-Portuguesas, fizeram-no empiricamente – via popular. Mais tarde os estudiosos descobriram as regras dessa evolução e, em posse de tão valioso instrumento, foram ao latim, ao grego e a outras línguas fortes da época, trabalhar palavras – via erudita - que eram fundamentais para se tornar o Português naquilo que é hoje – uma das línguas mais criativas do mundo. Ainda hoje surgem constantemente novas palavras por essas duas vias.

Findos os exercícios, penso que podemos estabelecer correctamente a primeira parte da evolução, a mais difícil,

mbondo > imbondo.

Verifica-se que chegámos sempre a imbondo e nunca a embondo.

Mete só óleo de palma com lufazema e casca de imbondo, arranjam na cidade.” [7]

Como se trata de uma árvore há que acrescentar a imbondo o sufixo português eiro, o indicado para este tipo de nomes,

imbondo > imbondoeiro > imbondeiro (assimilação regressiva)

chegando-se à evolução completa:

mbondo > imbondo > imbondeiro.

Penso ser claro que Imbondeiro é a forma correcta.

E mais: pelas análises feitas podemos afirmar peremptoriamente que nem sequer é viável uma evolução divergente, uma vez que, para chegarmos a embondo, teremos que passar, forçosamente, por imbondo, uma vez que

Embondeiro é uma corruptela, pela mutação do im em em, comum na língua portuguesa, mormente na linguagem popular (importar-se < emportar-se), pelo que

embondeiro « imbondeiro

Embondeiro não evoluiu de mBondo, mas corrompeu-se de Imbondeiro, a palavra portuguesa correcta.


notas e bibliografia:
[1] VICTOR, Geraldo Bessa. Cubata Abandonada, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1958, p. 25.
[2] VIEIRA, José Luandino. A Vida Verdadeira de Domingos Xavier, Edições 70, 4ª edição, Lisboa, 1988, p.35
[3] FONSECA, Fernando V. Peixoto. Embondeiro, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 25.07.1997,
[url] http://www.ciberduvidas..sapo.pt/controversias.php?rid=901, ac. 14.01.2009
[4] MATTA, J. D. Cordeiro da. Ensaio de Diccionario Kimbúndu-Portuguez, Casa Editora António Maria Pereira, Lisboa, 1893.
[5] RAMOS, Rui. Imbondeiro, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 24.07.1997,
[url] http://www.ciberduvidas.sapo.pt/controversias.php?rid=903, ac. 14.01.2009:
“Quando um português antigo chegou a uma sanzala mbundu e apontou para aquelas enormes árvores indagando o seu nome, as pessoas teriam talvez respondido: «ii mbondo» (aquilo é um mbondo, aquele é um mbondo).”
[6] Por esta regra também concordam dois nomes por meio do genitivo, o que não vem agora ao caso.
[7] MONTEIRO, Manuel Rui. Rioseco, Edições Cotovia, 2ª edição, Lisboa, 1999, p. 91.


admário costa lindo

Janeiro 17, 2009

Palavras Aventureiras II

Em louvor de Vilanova



Cochilar. Cabecear com sono, dormitar, oscilar.

Os meus leitores já escutaram, certamente, uma frase como esta:

- É mesmo de angolano! Este povo, se não existisse, teria que ser inventado!

É bem verdade que o angolano tem características que os europeus, talvez os que nunca tenham passado por África, não aceitam de bom grado ou não entendem muito bem.

Uma característica que lhe é atribuída é a preguiça, a mangonha. A história verdadeira não é bem essa e é um tanto rebuscada, não vou agora dissertar sobre ela, poderá ficar para outra altura. Pergunto apenas àqueles que assim pensam: quem gostaria de trabalhar de sol a sol, a troco de 50 angolares, com “porrada se refilares”?

Característica verdadeira é a sua alegria de viver, a exuberância perante a vida… e a morte que, para o angolano, é apenas um estádio, uma passagem.

Em Angola ao velório é mais apropriado chamar-se serão obituário. Nesses serões não há coros de lamentações e choros (que não se evitam, evidentemente) intermináveis. Há mais uma roda de estórias, adivinhas e cantos… mas nenhum anedotário estupidificante.

Esse serão tem, porém, uma regra de ouro: é terminantemente proibido coxilar, sob pena de se incorrer em pesada multa, cobrada em dinheiro ou géneros. O produto das coimas, é bom de saber, reverte a favor do orçamento dos comes-e-bebes da noitada.

Há muito boa gente que desconhece que a portuguesíssima cochilar é uma palavra de raiz angolana, registada na língua desde 1671-1696. [1]

“Minha velha mulemba...
À sombra dela (eu era monandengue),
com outros meninos brincando,
eu ensaiei
meus passos de massemba...
Tantas vezes ali deitei meu luando
e ali fiquei cochilando,
à sombra da mulemba.”
[2]

Este verbo deriva do quimbundo Kukoxila, cabecear, toscanejar ou escabecear.[3] Deu-se, como indicado no I artigo para a palavra Banzar, a queda do prefixo verbal quimbundo – Ku – e o acrescento da terminação – ar - da 1ª conjugação verbal em português; paralelamente houve uma adaptação morfológica, com a mutação do K em C, já que o Português não admite aquela primeira letra senão para algumas excepções muito restritas, mesmo no Novo Acordo Ortográfico.

Até aqui tudo na santa paz das almas. Há, no entanto, um quiproquó: não foi respeitada a raiz. Se a palavra deriva de Kukoxila a grafia correcta tem que ser Coxilar.

Eu bem procurei, esfalfei-me, mas concluí amargamente que apenas três pessoas estão de acordo quanto a esta questão: Ribas, Vilanova e eu. Nem mesmo o Luandino, pópila!

“Patrão Abelho dava as santas noites que amanhã é dia, a tia Guidinha nunca cochilava – fechava os olhos só para ser nova outra vez.” [4]

Será resultado do grande peso dos dicionaristas?

Ando a reler toda a literatura angolana, da minha biblioteca e de outras, por via do sonho antigo de publicar o Mulonga em livro. É aí que reside a esperança de que mais alguém se junte ao grupo.

Aqui vai a palavra dita pelo Vilanova, com a variante nacionalista do K:

“os passos de novo me trazendo
donde que o sal do exílio me chamou

minha irmã minha irmã
na tonga te busquei inutilmente

a sexa interroguei e a serpente
na honga koxilando sob a folha da mubanga

na lagoa às kitutas procurei
e Nâmbua dei-lhe encontro a caçadora

e quando de teu óbito me contavam
já a tarde tombara em Tunda-a-M’bulu

minha irmã minha irmã
nossa casa de adobe é preciso levantar”
[5]

Esta é a palavra toda do poema inteiro, Meu coração habita na Kileba. Não resisti inteirá-lo.

João-Maria Vilanova é a condição perfeita do pseudónimo. Muita gente tentou adivinhá-lo, já foram aventadas várias hipóteses que passam por todos os grandes escritores angolanos, mas ninguém o sabe. Acho mesmo que nem os editores o conhecem. Nem mesmo o Orlando Albuquerque o conheceu, embora tenha sido ele quem o revelou ao mundo com os “Cadernos Capricórnio” de saudosa memória. De uma coisa eu não abdico: com pseudónimo se não for nome ungido, ou com nome verdadeiro se não for pseudónimo, o muito esquecido João-Maria Vilanova é, para mim, o maior poeta angolano de sempre, logo-logo junto a Ruy Duarte de Carvalho.

Os dois poetas preenchem(-me) a eternidade!


notas e bibliografia:
[1] HOUAISS e Mauro de Salles Villar, António / Instituto António Houaiss. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Global Notícias Publicações, Lisboa, 2005.
[2] VICTOR, Geraldo Bessa. Cubata Abandonada, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1958, p. 24.
[3] MATTA, J. D. Cordeiro da. Ensaio de Diccionario Kimbúndu-Portuguez, Casa Editora António Maria Pereira, Lisboa, 1893.
[4] VIEIRA, José Luandino. Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & Eu. Editorial Caminho, Lisboa, 2006, p. 29
[5] VILANOVA, João-Maria. Poesia, Editorial Caminho, Lisboa, 2004, p. 79.

outra nota:
Não se apoquente quem aqui encontrar palavras ou expressões desexplicadas. A seu tempo todas elas se tornarão límpidas.


admário costa lindo

Palavras Aventureiras I

Navegantes



Vamos aqui gandiar pela história de algumas palavras de raiz angolana, ou por Angola perfilhadas - e pelo mais. Não será o mesmo que o “Mulonga, a palavra”, mas uma variante aprofundada.

Não sei quantificar as palavras angolanas que, desde a época da escravatura, navegaram e continuam a navegar pelas sete partidas do mundo, que não apenas pelos países de expressão portuguesa. Sei apenas que enriqueceram muito a Língua Portuguesa e que algumas foram mais além.

Também o poveiro, “tipo de pescador original e inconfundível na beira-mar portuguesa”, que vive “na orla da angra ou enseada de Varzim”,[1] se aventurou por esse mundo fora, provavelmente mesmo nas caravelas henriquinas. Esteve em Angola, principalmente na província de Moçamedes, actual Namibe, onde constituiu uma das comunidades mais numerosas e com influência decisiva no desenvolvimento daquela que foi a maior região piscatória de Angola.[2] Muitos dos termos portugueses daquela região, mormente os relacionados com a arte da pesca, são genuinamente poveiros.

Gandiar é um belíssimo regionalismo poveiro, que significa passear sem cuidados, aquilo que se pretende com esta série de artigos.

Peguemos então no assunto.

Para se investigar a origem, a identidade ou a história de determinado termo é fundamental, antes do mais, procurar saber de que língua(s) tratamos, ou cairemos em erros crassos.

Depois há que atender a que uma palavra ou expressão pode:

a) simplesmente, ser criada ou inventada –
ex: Xaxualhar (sussurrar das folhas das árvores pela acção do vento) é um neologismo de origem onomatopaica, ao que sabemos criado por Luandino Vieira;
“só um quente novo, um fresco bom, melhor que o vento que soprava xaxualhando as pequenas folhas verdes das acácias” [3];

b) derivar de outra, da mesma língua ou de língua estranha com a qual o falante esteja em
contacto, dominando-a ou não –
ex: Banzado é um adjectivo formado do verbo Banzar, que derivou do quimbundo Kubanza (pensar, meditar, cogitar, raciocinar) [4]; deu-se a queda (aférese) do prefixo verbal quimbundo – Ku – e ao radical Banza foi acrescentada a terminação ar da 1ª conjugação verbal em português ;
“- «É tão bonita!» – «Seu negro!» -
Ela foi feroz, tão franca,
que ele nem quis replicar:
- «Mas eu tenho a alma branca…»
- Ficou calado, banzado,
com vontade de chorar.”
[5]

c) ser transposta de língua estranha na sua totalidade, sem transformação (podendo sofrer apenas as necessárias adaptações morfológicas) –
ex: Kabalu (quimbundo) [4] é uma adaptação do Cavalo português;

d) evoluir para um termo totalmente novo –
ex: Batuque (bombo, tambor) – evoluiu do quimbundo Ba atuka (onde de salta ou se pino-teia) [6] => Baatuka > Batuka > Batuke > Batuque;
“quando passou ao largo da sua antiga senzala, a caminho do Posto do Cuilo, ouviu os patrícios cantarem ao som dos atabaques do batuque”; [7]

e) manter o mesmo significado ou adquirir significação diferente ou, mesmo, antónima do
original –
ex: mBolo (quimbundo) [4] – adaptou-se do Bolo português, passando a designar o Pão.

E assim iremos, de preferência ao sabor doce, de café em pingo.


notas e bibliografia:
[1] GRAÇA, António dos Santos. O Poveiro, Publicações Dom Quixote, 3ª edição, Lisboa, 1992, p. 17.
[2] MEDEIROS, Isabel. Contribuição para o Estudo da Colonização e da Pesca no Litoral de Angola ao Sul de Benguela, Instituto de Investigação Científica Tropical / Junta de Investigações Científicas do Ultramar, Lisboa, 1982, p. 19:
“A Capitania de Moçamedes”, que contribuiu “com mais de 60% do total de pesca desembarcada no país, agrupava 35% dos pescadores matriculados, 22,2% do total de embarcações com 51% da tonelagem de arqueação bruta (dados de 1970-71, últimos disponíveis) e detinha 4,5% do valor das exportações angolanas dos derivados da pesca, que no conjunto representavam 5,4% daquelas exportações”.
[3] VIEIRA, José Luandino. Luuanda, Edições 70, 11ª ed., Lisboa, 2000, p.42.
[4] MATTA, J. D. Cordeiro da. Ensaio de Diccionario Kimbúndu-Portuguez, Casa Editora António Maria Pereira, Lisboa, 1893.
[5] VICTOR, Geraldo Bessa. Cubata Abandonada, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1958, p. 29.
[6] RIBAS, Óscar. Dicionário de Regionalismos Angolanos, Contemporânea Editora, Matosinhos, 1997.
[7] SOROMENHO, Castro. Terra Morta, Campo das Letras, Porto, 2001, p. 49.


admário costa lindo

Dezembro 23, 2008

Festas Felizes 2009

crédito Albano Júnior



desejamos a todos os



leitores e amigos



FELIZ NATAL



e



PRÓSPERO ANO NOVO






Dezembro 14, 2008

Dinossauros em Angola

Há conhecimentos que é necessário procurar. Em Angola há bem mais do que baixa política, como pretendem fazer crer as grandes agências noticiosas.

Uma equipa de investigadores de Angola, E.U.A., Holanda e Portugal desenvolve uma campanha de estudos paleontológicos, com trabalhos de campo no Namibe entre 2005 e 2007. Descobriram o primeiro dinossauro angolano. [ler mais]

O deserto do Namibe nasceu há 100 milhões de anos, numa altura em que o Atlântico era ainda um projecto da Natureza e Pangeia não se tinha dividido totalmente. É de supor, portanto, que a costa angolana seja um lugar privilegiado para os estudos paleontológicos.

Eu que por lá vivi tantos anos reconheço, por experiência própria, a verdade desta afirmação. Lembro-me do tempo da juventude, quando empreendia longos passeios pelas dunas em busca das pedrinhas que reflectiam as cores todas do mundo e que só se encontravam ali, para lá das casuarinas - aquela barreira de árvores plantada pelo homem para impedir o avanço das areias. Lembro-me bem que era um espaço sem fim, um mar de areia a perder de vista que me fazia sentir mais pequenino do que aquilo que eu era, minúsculo, mas que, paradoxalmente, me fazia sentir como que um ser aumentado pela simples razão de estar em comunhão com a Natureza. É que esta coisa que assim se chama, Natureza, é tão sublime que nos transforma quando com ela contactamos, seja uma floresta, um rio, um mar ou um – dizem alguns – desolador deserto. Eu não tenho do deserto essa noção. Para mim o deserto e a floresta são apenas formas diversas de vida. Se lá vivemos há que aproveitar aquilo que nos é oferecido e transformar todas as noções em estádios, em valores e em consciência de vida. Temos a possibilidade de assim proceder porque temos a faculdade de discernir. Teórica. Porque, na verdade, o que mais tem faltado ao Homem tem sido a capacidade de distinguir o que é bom daquilo que é a destruição. Conseguimos, do simples, alcançar o mais espantoso - ainda não nos demos conta do mal que estamos a perpetrar contra nós próprios!

Sinto-me, neste momento, como me sentia no deserto em busca das pedrinhas - banzado com a Natureza. É que, mesmo no deserto, a beleza e a força natural são tais que nos sentimos como um simples grão de areia, ou de pó, no universo.

Lembro-me de, nessas alturas de descoberta, ter ficado pasmado com um facto agora descodificado: como era possível encontrar, nas dunas, conchas de moluscos marinhos igualinhas àquelas que apanhávamos na língua da maré, tão longe daquele lugar?

Alguns de nós conhecem, hoje, a resposta jurássica a essa questão, outros nem tanto, mas todos deverão ter a noção de que, com a nossa superior inteligência inúmeras vezes sublimada, somos apenas – paradoxo dos paradoxos - o elo mais fraco da cadeia natural. Disso não tenhamos dúvidas, quer queiramos, quer não, pelo simples facto de termos sido dotados com essa coisa chamada consciência, que tem um reverso – a não-consciência, a inconsciência, a falta de consciência … como se quiser!

admário costa lindo

Dezembro 04, 2008

A índia sabe

O Angola Haria esteve de férias forçadas. Continua ainda, na verdade. Foi o pulso direito que parti e que me impediu de escrever, é agora (desde 17 de Outubro, imagine-se) um problema qualquer na linha telefónica que não há meio de se resolver… (já aqui disse que a zona onde moro é desprivilegiada, tirando a época de eleições… depois chamam-me nomes… e qualquer dia levam-me a tribunal… modismo cá pelo burgo!)

Foi tempo de aproveitar para pôr a leitura em dia, escrever e arrumar biblioteca e arquivos.

Foi assim que revi e reli isto que vos mostro. [ler tudo em ”Amor de índio”]

Outubro 15, 2008

o Ó / the O




o Ó



bOca de comer
(com O de fOme)

palha como enchimento
diariamente gástrico

arroto oco
eco do choro da miséria

fOme de comer
(com O de bOca)






the O



mOuth to eat
(with an O like ravenOus)

stuffing of straw
daily gastric

hollow belch
echo of misery weeping

ravenOus to eat
(with an O like mOuth)

admário costa lindo
Uije, 1974

Este poema é a minha contribuição para o Blog Action Day 2008 - Poverty, uma ligação de mais de 12 mil blogs com um objectivo comum: a consciencialização de que a pobreza e a fome são fenómenos mundiais que nos cercam cada vez mais de perto.

Para saber - um pouco mais - como é possível acabar com a fome em África, siga esta ligação
O Fim da Fome em África

This poem is my contribution for the Blog Action Day 2008 - Poverty, a linkage of over 12 thousand blogs with one common purpose: the consciousness that poverty and famine are universal phenomenon that surrounds us closer and closer.

To know - a little bit more about - how to end famine in Africa, follow this link
O Fim da Fome em África (The End of Famine in Africa)

Agosto 22, 2008

O Acordo I - Grelhas explicativas ( II )


ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA ( 1990)



BASE XI
Da acentuação gráfica das palavras proparoxítonas



Base XII
Do emprego do acento grave


Base XIII
Da supressão dos acentos em palavras derivadas


Base XIV
Do trema


Base XV
Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares



Base XVI
Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação



Base XVII
Do hífen na ênclise, na tmese e com o verbo haver



Base XVIII
Do apóstrofo




Base XIX
Das minúsculas e maiúsculas



Base XX
Da divisão silábica



Base XXI
Das assinaturas e firmas

fim



última actualização: 4.09.2008





a seguir
O Acordo II – Algumas questões pertinentes

Agosto 21, 2008

Os ideais olímpicos


As relações internacionais pautam-se, grosso modo, pelos interesses politiqueiros e economicistas. Provam-no à saciedade as guerras que não param de matar.

A Solidariedade e o Humanismo são coisas abstratas e delas se sabe pelos livros de reclamações. Confirmam-no a pobreza e a miséria do chamado terceiro mundo e dos países remediados, mas também das grandes potências económicas.

O Comité Olímpico Internacional – COI rejeitou um pedido da Espanha para permitir que a sua bandeira fosse colocada a meia haste e os seus atletas usassem uma tira preta, em sinal de pesar pelos mortos no acidente de aviação de Barajas . Não se trata apenas de NÃO SENTIREM, arrogam-se o direito de impedir que OUTROS SINTAM.

Não me interessam as justificações que o COI possa dar. A posição que este organismo desportivo tomou, que condiz perfeitamente com aquilo que é a política chinesa, a quem entregaram a realização destes jogos, não se coaduna com os tão propalados ideais de paz, esperança e inclusão. Pierre de Coubertin, se fosse vivo, usaria a burka de vergonha.

Não é próprio de Humanos.

admário costa lindo

Agosto 19, 2008

O Acordo I - Grelhas explicativas ( I )


ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA ( 1990)


NB:
A redação da série de artigos que ora se inicia, salvo possíveis lapsos resultantes da falta de rotina, respeita as regras do novo Acordo Ortográfico.



[clique nas grelhas para aumentar]



BASE I
Do alfabeto e dos nomes próprios estrangeiros e seus derivados


BASE II
Do h inicial e final


BASE III
Da homofonia de certos grafemas consonânticos


BASE IV
Das sequências consonânticas


BASE V
Das vogais átonas


BASE VI
Das vogais nasais


BASE VII
Dos ditongos


BASE VIII
Da acentuação gráfica das palavras oxítonas


BASE IX
Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas
(acento agudo)

BASE IX
Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas
(acento circunflexo)

BASE IX
Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas
(acentuação prescindível)


BASE X
Da acentuação das vogais tónicas/tônicas grafadas i e u das palavras oxítonas e paroxítonas



O Acordo I – Grelhas explicativas ( II )

Julho 28, 2008

João Ubaldo Ribeiro, Prémio Camões 2008



O escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro foi distinguido com o Prémio Camões 2008, o mais importante galardão atribuído a autores de língua portuguesa. [LER MAIS]

Na altura do anúncio da decisão do Júri estalou uma pequena celeuma, uma vez que, para a atribuição do prémio deste ano, apenas foram analisadas obras de autores brasileiros. [LER e OUVIR MAIS]


BIOGRAFIA

1941 - Nasce na ilha de Itaparica, estado da Bahia, a 23 de Janeiro, João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro. Passa a infância em Aracajú, capital do estado de Sergipe.

1947 - Inicia os estudos com um professor particular e ingressa no Instituto Ipiranga em 1948.

1951 – Matricula-se no Colégio Estadual de Sergipe. Seu pai, Manoel Ribeiro, chefe da Polícia Militar, obriga-o a praticar o latim e a copiar os sermões do Padre António Vieira, durante as férias. Devido a pressões políticas o pai transfere-se com a família para Salvador e João Ubaldo é matriculado no Colégio Sofia Costa Pinto.

1956 - Conhece Glauber Rocha, seu colega no Colégio da Bahia, para onde se transferira em 1955, e entre eles nasce uma grande amizade.

1957 - Inicia a vida profissional como repórter do “Jornal da Bahia”. Passa, mais tarde, para “A Tribuna da Bahia” onde exerce o cargo de editor-chefe.

1958 – Matricula-se em Direito na Universidade Federal da Bahia, participa no movimento estudantil e, com Glauber Rocha, vira-se para a edição de jornais e revistas culturais. Concluídos os estudos de Advocacia, profissão que nunca exerceu, faz pós-graduação em Administração Pública.

1959 - É publicada a sua primeira obra literária, "Lugar e Circunstância", na antologia “Panorama do Conto Bahiano”. Trabalha na Prefeitura de Salvador como office-boy e, posteriormente, como redactor do Departamento de Turismo.

1960 - Casa com Maria Beatriz Moreira Caldas, sua colega na Faculdade de Direito. Irão divorciar-se 9 anos depois.

1961 – Participa na colectânea “Reunião”, editada pela Universidade Federal da Bahia, com os contos "Josefina", "Decalião" e "O Campeão".

1963 - Escreve o primeiro romance, “A Semana da Pátria”, título posteriormente substituído por "Setembro não faz sentido".

1964 – Parte para os EUA com uma bolsa de estudos a fim de completar o mestrado em Administração Pública e Ciências Políticas. Em plena efervescência política as forças da repressão fazem divulgar pela televisão um cartaz com a sua fotografia e a inscrição"Procura-se". Não sabem que o esquerdista João Ubaldo Ribeiro estuda nos Estados Unidos a expensas daquele país.

1965 - Volta ao Brasil e começa a leccionar Ciências Políticas na Universidade Federal da Bahia.

1969 - Casa-se com a historiadora Mónica Maria Roters que lhe dará duas filhas, Emília (Fevereiro de 1970) e Manuela (Junho de 1972).

1978 – Separa-se de Mónica Roters. É editado nos EUA o romance "Sargento Getúlio" com tradução do próprio João Ubaldo.

1979 – É professor convidado da Universidade de Iowa, EUA, no International Writting Program.

1980 - Casa com a fisioterapeuta Berenice Batella que lhe dará dois filhos, Bento (Junho de 1981) e Francisca (Setembro de 1983). Participa no júri do prémio Casa das Américas, em Cuba.

1981 – A Fundação Calouste Gulbenkian concede-lhe uma bolsa e João Ubaldo passa a viver em Lisboa com a família. Em Portugal edita, com o jornalista Tarso de Castro, a revista “Careta”.

1982 - Participa no Festival Internacional de Escritores em Toronto, Canadá.

1982 – Estreia do filme "Sargento Getúlio" de Hermano Penna , adaptado do seu romance homónimo; premiado no Festival de Gramado - Melhor Actor, Melhor Actor Secundário, Melhor Som Directo, Melhor Filme, Grande Prémio da Crítica e Grande Prémio da Imprensa e do Júri Oficial.

1984 – Participa, com Jorge Luis Borges e Gabriel Garcia Marques, numa série de nove filmes da TV estatal canadiana sobre a Literatura da América Latina.

1987 - "Viva o povo brasileiro" é escolhido como samba-enredo do carnaval pela Escola Império da Tijuca.

1990 - Vive 15 meses em Berlim, a convite da Deutsch Akademischer Austauschdienst; escreve crónicas semanais no jornal "Frankfurter Rundschau" e produz peças de teatro radiofónico.

1991 – Regressa ao Brasil. O seu romance "O sorriso do lagarto" é adaptado para televisão por Walter Negrão e Geraldo Carneiro. Escreve crónicas para os jornais “O Globo” e “O Estado de São Paulo”.

1993 – Faz a adaptação do seu conto "O santo que não acreditava em Deus" para a série “Caso Especial” da Rede Globo de Televisão. É eleito para a Academia Brasileira de Letras.

1994 – Em co-autoria com Cacá Diegues e Antônio Calmon faz a adaptação cinematográfica do romance de Jorge Amado "Tieta do Agreste". Faz a cobertura do Campeonato Mundial de Futebol, nos EUA, como enviado dos jornais “O Globo” e “O Estado de São Paulo”. De regresso ao Brasil é internado com arritmia cardíaca. Participa na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, onde lhe é outorgado o Prémio Anna Seghers.

1996 - Volta a participar na Feira do Livro de Frankfurt; é-lhe concedida a cátedra de Poetik Dozentur, na Universidade de Tubigem.

1998 - Participa no Salão do Livro em Paris.

2008 – É distinguido com o Prémio Camões, o mais importante galardão atribuído a autores de língua portuguesa.


BIBLIOGRAFIA

"Setembro não faz sentido", romance 1968, com prefácio de Glauber Rocha e apadrinhamento de Jorge Amado; a obra deveria chamar-se “A Semana da Pátria”, mas o título é alterado por sugestão da editora.

"Sargento Getúlio", romance 1971, Prémio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro na categoria "Revelação de Autor" 1972.

"Vencecavalo e o outro povo", contos 1974; título inicial "A guerra dos Pananaguás".

"Vila Real”, conto 1978.

Política: quem manda, por que manda, como manda”, ensaio 1981.

"Livro de Histórias", contos 1981.

Vida e paixão de Pandomar, o cruel”, infanto-juvenil 1983; Prémio Die Blaue Brillenschlange 1994.

Viva o povo brasileiro”, romance 1984; título inicial "Alto lá, meu general"; Prémio Jabuti na categoria "Romance"; Prémio Golfinho de Ouro, do Governo do Rio de Janeiro.

Sempre aos domingos”, crónicas 1988.

O sorriso do lagarto”, romance 1989.

A vingança de Charles Tiburone”, infanto-juvenil 1990.

"Já podeis da pátria filhos", contos 1991; reedição de “Livro de histórias” acrescido de "Patrocinando a arte" e "O estouro da boiada"

Um brasileiro em Berlim”, crónicas 1995.

O feitiço da Ilha do Pavão”, romance 1997.

Arte e ciência de roubar galinha”, crónicas 1998.

A casa dos Budas ditosos”, romance 1999.

O Conselheiro Come”, crónicas 2000.

Miséria e grandeza do amor de Benedita”, romance 2000; 1º e-book lançado no Brasil; Portugal Dom Quixote 2003.

Diário do Farol”, romance 2002; Portugal Dom Quixote 2003.

Você me mata, Mãe gentil”, crónicas 2004.

A gente se acostuma a tudo”, crónicas 2006.


OUTROS PRÉMIOS

Prémio Anna Seghers 1994.
Prémio Camões 2008.

Julho 27, 2008

Oratura...dos Ogros...e do Fantástico





A "Oratura...dos Ogros...e do Fantástico" é um ideia do pintor Mário Tendinha, angolano do Namibe que, baseado na tradição oral angolana, organiza uma exposição de pintura representando esse tema com a participação de artistas de outras áreas.
As fotografias serão da autoria do fotógrafo José Pinto (Tonspi).
A montagem coreográfica e encenação estarão a cargo da coreógrafa Ana Clara Guerra Marques. (1)


Para o efeito será criada uma trilha sonora original com recurso às novas tecnologias.
O grupo de percussionistas estará à responsabilidade do Mestre Abraão Kumba ("Maradona").
Esta articulação das várias áreas artísticas estender-se-á a uma interacção com o público, de forma dinâmica e surpreendente, transportando-os até ao mundo dos Ogros e do Fantástico imaginado pelo pintor, a partir da oratura popular.



A exposição será inaugurada a 1 de Agosto no Namibe, na Estufa Municipal, no Horto e poderá ser acompanhada »»» AQUI.





(1) PNC 2006 para a Dança.



Entretanto [VEJA MAIS]

Julho 24, 2008

Ao som de “Quimbemba"

foto Angop

O músico angolano Teta Lando foi hoje (1) a enterrar no Cemitério do Alto das Cruzes em Luanda, ao som de “Quimbemba", um dos seus êxitos, pela voz de Mário Gama.

Alberto Pedro Teta Lando nasceu em 1948 em São Salvador do Congo, actual Banza Kongo, província do Zaire.

A sua mais antiga canção que se conhece é " Kinguibanza" de 1964, mas só em 1966 gravou o primeiro LP.

Temas como "Angolano segue em frente", "Eu Vou Voltar", "Menina de Angola", "Negra de Carapinha Dura", "Reunir", "Tata Nketo", “Um Assobio Meu”, "Ntoyo" e "Quimbemba", transformaram-no num dos ícones da música angolana.

Nem sempre a sua relação com os meios musicais da capital foi pacífica.

Após a independência de Angola exilou-se e só regressou definitivamente ao país em 1989, pouco tempo depois de ter participado no Festival Nacional da Cultura, na Cidadela de Luanda.

Em 2006 foi eleito presidente da UNAC - União Nacional dos Artistas e Compositores. Da sua acção à frente dos destinos desta organização de classe destaca-se a conquista da pensão de reforma para os artistas.

Para além de músico e compositor esteve também ligado à realização de espectáculos e actividades culturais.

Faleceu a 14 deste mês, em Paris, vítima de cancro.



DISCOGRAFIA (possível)
[MAIS de viva voz]

“Independência” LP 1975

“Esperanças Idosas” CD Sonovox 1993

“Memórias” CD colectânea 2000

DISCOGRAFIA CONJUNTA

“Vinte Anos de Música Angolana” 2CD Endipu/Sonovox 1996

Angola 60’s 1956-1970” CD Buda 1999

Angola 80’s 1978-1990” CD Buda 2000

Angola as 100 Grandes Músicas dos Anos 60 e 70” 4CD Som Livre 2006

Angola Histórias da Música Popular” DVD Lx Filmes 2005




(1) 23.07.2008

admário costa lindo

Junho 21, 2008

3º Encontro de Alexandrenses

Alexandrenses3


[clicar no logotipo]

Encontro ADIMO 2008

Encontro dos Amigos de Angola 2008

Junho 19, 2008

Onde está a vergonha?



Tentei evitá-lo mas não foi possível. Não resisti! Esta pérola da falta de vergonha,foi-me enviada por e-mail.
TENTEI COMPRAR UM IATE,
A TROCO DO MEU CARRITO
VAT'EMBORA AMIGO, VATE!
E TROCA-O POR UM BURRITO.

GASÓLEO A 0,80€ PARA OS IATES

O Governo democrático e maioritário do PS tem por hábito quando é confrontado com realidades, apontar os canhões para o PSD, seu parceiro do «Bloco Central de Interesses».

Mas agora, todos ficam a saber : os que têm iates e embarcações de recreio, através do Artº 29 do Cap. II da Portaria 117-A de 8 de Fevereiro de 2008, beneficiam de gasóleo ao preço do que pagam os armadores e os pescadores.

Assim todos os portugueses são iguais perante a Lei, desde que tenham iates…

É da mais elementar justiça que os trabalhadores e as empresas que tenham carro a gasóleo o paguem a 1,42 €, e os banqueiros e empresários do 'Compromisso Portugal' o paguem a 0,80 €, e é justo, porque estes não têm culpa que os trabalhadores não comprem iates!


Porreiro pá !


NB:
a quadra é da autoria do João Manuel Mangericão (Neco)