[url] http://dhangolaharia.blogspot.com/2010/08/sakineh.html

Sakineh é uma mulher iraniana condenada à morte por lapidação, acusada de adultério.
Esta lei dos homens que se julgam deuses é o regresso à barbárie





Esforcei-me por ter orgulho no meu trabalho mas tudo o que consegui sentir foi vergonha.
O racismo já não conseguia mascarar a realidade da ocupação.
Eles eram gente, seres humanos.
Desde então passei a sentir culpa cada vez que via homens idosos, como aquele que não podia andar e foi carregado numa maca até que a polícia iraquiana o pudesse levar.
Sentia culpa cada vez que via uma mãe com os seus filhos, como aquela que chorava estericamente, gritando que nós éramos piores do que Saddam enquanto a obrigávamos a sair de casa.
Sentia culpa cada vez que via uma rapariga como a que agarrei pelo braço e arrastei para a rua.
Disseram-nos que lutávamoas contra terroristas mas o verdadeiro terrorista era eu e o verdadeiro terrorismo é esta ocupação.
O racismo dos militares tem sido, durante muitas épocas, uma ferramenta importante para justificar a destruição ou a ocupação de outro país. Tem sido muito usado para justificar a morte, a subjugação ou a tortura de outro povo.
O racismo é uma arma vital usada por este governo. É mais poderosa do que uma metralhadora, um tanque, um bombardeiro ou um navio de guerra. É mais destrutivo do que um projéctil de artilharia, um anti-bunquer ou um míssil Tomahawk.
Apesar do nosso país fabricar e gerir essas armas, elas são inofensivas sem pessoas dispostas a usá-las. Aqueles que nos enviam para a guerra não têm que apertar o gatilho ou lançar morteiros. Eles não precisam de lutar na guerra, a sua função é vender a guerra. Precisam de um público disposto a mandar os seus soldados para o perigo. Precisam de soldados dispostos a matar e morrer sem questionar. Eles podem gastar milhões com uma única bomba mas essa bomba só se torna uma arma quando as divisões militares estão dispostas a executar a ordem para usá-la. Eles podem enviar um soldado para qualquer parte do Mundo mas só haverá guerra se o soldado concordar em lutar. É a classe dominante de bilionários que lucra com o sofrimento humano, que se preocupa apenas em aumentar a sua riqueza, em controlar a economia mundial
Sabem que o seu poder consiste somente na habilidade para nos convencer de que a guerra, a opressão e a exploração são do nosso interesse. Eles percebem que a sua riqueza depende da capacidade para convencer as classes trabalhadoras a morrer para controlarem o mercado de outro país e o convencer-nos a matar e morrer tem por base a sua habilidade em fazer-nos pensar que somos, de alguma forma, superiores.
Soldados, marinheiros, marines, aviadores, não têm nada a ganhar com esta ocupação. A grande maioria das pessoas que vivem nos E.U.A. não têm nada a ganhar com esta ocupação. Na verdade, nós não somente não temos nada a ganhar como sofremos mais por causa disso: perdemos membros e damos a nossa vida de forma traumática. As nossas famílias têm que ver os caixões com bandeira descer à cova.
Há milhões de pessoas neste país sem assistência médica, sem trabalho ou acesso à educação e vemos o governo gastar 450 milhões de dólares por dia com essa ocupação. Pessoas pobres e trabalhadoras deste país são enviadas para matar pessoas pobres e trabalhadoras de outro país e tornam os ricos ainda mais ricos.
Sem o racismo os soldados perceberiam que têm muito mais em comum com o povo do Iraque do que com os bilionários que nos mandam para a guerra.
Eu atirei famílias para a rua no Iraque apenas para poder chegar a suas casas e encontrar famílias atiradas para a rua, nessa trágica e desnecessária crise imobiliária.
Devemos acordar e perceber que o nosso verdadeiro inimigo não está em alguma terra distante e não são pessoas cujo nome não conhecemos ou a quem não entendemos culturalmente. O nosso inimigo é gente que conhecemos muito bem e que podemos identificar. O nosso inimigo é um sistema que declara guerra quando é lucrativo, o inimigo é uma companhia que nos despede quando é lucrativo, é uma companhia de seguros que nos nega assistência quando é lucrativo, é o banco que fica com as nossas casas quando é lucrativo. O nosso inimigo não está a 5 mil milhas de distância, está bem aqui.
Se nos organizarmos e lutarmos juntos, com os nossos irmãos e irmãs, podemos parar esta guerra, podemos parar este governo e podemos criar um mundo melhor.

O ano que agora acaba foi, para o AngolaHaria e por motivos vários, muito fraco. Por tal motivo peço imensas desculpas aos meus leitores, seguidores e amigos.
Não quero, no entanto, virar esta página sem referir o “Prémio Dardos”, indicado que fui pela Adélia Clara Vaz, minha amiga, minha prof e minha irmã mais-velha no seu Aileda Aki.
Com o “Dardos” reconhecem-se os valores que um blogueiro demonstra, o seu empenho em transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está subjacente nos seus escritos.
São três, as regras do “Prémio Dardos”:
1- Aceitar exibir a imagem.
2- Linkar o blog do qual recebeu o prêmio.
3- Escolher 15 blogs para entrega do Prêmio.
As minhas indicações:
1. para estas indicações segui dois critérios:
a. blogues não indicados para este prémio, por toda a comunidade (até onde foi possível saber);
b. blogues não indicados por mim para outros prémios. [aqui]
2. a ordem é meramente alfabética.
10encantos (Poemas) de Soberano Canhanga
http://10encantos.blogspot.com/
Alto Hama de Orlando Castro
http://altohama.blogspot.com/
A Matéria do Tempo de Fernando Ribeiro
http://amateriadotempo.blogspot.com/
A Minha Sanzala de JotaCê Carranca
http://sanzalando.blogspot.com/
Angola de Aida Saiago
http://www.angola-saiago.net/index.html
Angola da Utopia para a Realidade, Desabafos Angolanos
http://www.desabafosangolanos.blogspot.com/
Associação 27 de Maio
http://27maio.com/
Brisa Poética de Sílvia Câmara
http://brisapoetica.blogspot.com/
Entre as Palavras (minha alma poética) de Nelson Livingston
http://nelsonlevenaspalavras.blogspot.com/
Malambas de Lobitino Almeida N'gola (Eugénio Costa Almeida)
http://malambas.blogspot.com/
Mulembeira de Decio Bettencourt Mateus
http://mulembeira.blogspot.com/
Partos de Pandora de Violeta Teixeira
http://www.mgrande.com/weblog/index.php/partosdepandora/copyright
Quantos poemas tem a noite? de Sherazade/Mirabilis
http://quantospoemas.blogspot.com/
Quitexe de João Garcia
http://quitexe-historia.blogs.sapo.pt/
Rara Avis de Ana Tapadas
http://raraavisinterris.blogspot.com/
Na Pele da Cidade
In the Skin of the City
António Ole

Evento: Na Pele da Cidade In the Skin of the City António Ole
"António Ole; artte"
O quê: Exposição
Início: Sexta-feira, 11 de Dezembro às 18:30
Fim: Sexta-feira, 29 de Janeiro às 17:30
Onde: Centro Cultural do Instituto Camões, Luanda
Convidados confirmados:
Jorge Arrulo
Mário Tendinha
Ricardo Lima Viegas
HukalilileA análise história tanto pode constituir uma teoria isenta como um enorme embuste.
Quanto ao que a África em geral e a Angola em particular diz respeito, é politicamente correcto afirmar-se que o acervo histórico produzido no período Colonial “foi pegado por um tropel de marinheiros, soldados, comerciantes, missionários, cartógrafos, publicistas, membros de Sociedades de Geografia, cientistas e políticos europeus que foram cozinhando, para o seu interesse teórico e prático, representações sobre o continente e seus habitantes que eles procuraram impingir aos africanos.” (1)
Barbeitos generaliza e mete tudo dentro do mesmo saco, mas não quer isto dizer que não tenha razão, genericamente falando. E esta verdade não invalida uma outra: que o que se seguiu não foi melhor e que os novos marinheiros, soldados, comerciantes, missionários, cartógrafos, publicistas, membros de Sociedades de Geografia, generalizando também, actuaram da mesmíssima forma.
A nova “visão do homem africano e angolano finalmente ajustada aos seus próprios interesses e idiossincrasias” (2) pode não ser uma visão tão isenta como seria desejável e resultar na transposição da posição oficial do sistema político, como o foi no antigamente.
Vem isto a respeito do relato de David Birmingham sobre a “tentativa de golpe de Estado em Luanda a 27 de Maio de 1977.” (3) Sobre os factos, grosso modo, o que diz Birmingham é o mesmo que diz o Governo e o MPLA, ainda que o autor introduza afirmações como “a história oficial da tentativa de golpe de Maio … cobre a maior parte dos problemas…”, tentando assim afirmar uma pretensa isenção de análise.
Esta posição sobre factos históricos não é estranha. A História de Angola, a partir de 1961, confunde-se com a(s) História(s) do MPLA, porque assim se pretende que seja.
O MPLA nunca foi, ou apenas o foi durante um período muito curto, um movimento democrático, mormente após a chegada ao poder (a direcção do Movimento) de Agostinho Neto. Não existe, na História oficial, referência ao método utilizado por Neto para atingir a Direcção que, é sabido, foi tudo menos democrático. O mujimbo (4) fala em usurpação.
Oficialmente Mário Pinto de Andrade, Gentil Viana e outros dirigentes da primeira hora são vistos como nada tendo a acrescentar à História do Movimento. Viriato da Cruz foi sumariamente riscado dessa História. E convém lembrar que Viriato da Cruz foi um dos primeiros e destacado dirigente do Movimento, por todos reconhecido como uma mente brilhante e de extrema dedicação à causa da libertação. Foi feito prisioneiro na China, pelos mentores da Revolução Cultural, pelo facto de se ter recusado a alterar um seu relatório sobre a contribuição da China para a Revolução em África, nada abonatório para os chineses. O MPLA abandonou-o cobardemente, deixou que passasse os últimos tempos de vida na mais cruel indigência, deixou-o apodrecer nas masmorras onde acabou por morrer, tendo sido sepultado sem a mínima dignidade.
O MPLA tem, a respeito da lavagem histórica e outros itens da castração mental copiados do Big Brother, defensores horripilantes. Veja-se o que se passou com José Eduardo Agualusa, quando afirmou que "Uma pessoa que ache que o Agostinho Neto, por exemplo, foi um extraordinário poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia. Agostinho Neto foi um poeta medíocre." (5)
Saiu em defesa da causa mitológica um tal João Pinto, pelos vistos jurista e, pelos vistos também, professor de Ciência Política e Direito Público: “Acho mesmo que, deve haver responsabilidade criminal e civil por estarem reunidos todos requisitos do ultraje à moral pública (ofendeu a moral cultural ou intelectual dos angolanos), previsto e punido no Artigo 420º do Código Penal.”
O MPLA de Agostinho Neto sempre lidou muito mal com as opiniões contrárias. Foi assim com a Revolta Activa, com a Revolta do Leste e, por fim, com o Fraccionismo. Foi este último o que ele mais temeu porque, para além do mais, era ideologicamente o mais incómodo.
“Inicialmente os seus textos eram alegadamente baseados em Enver Hoxa da Albânia, mas em 1975 mudaram para os escritos de Mao e Nito Alves perorou largamente sobre a análise de classes ao estilo chinês em Angola. Cita Alves (6) voltou estes grupos para Lenine. Dentro do MPLA, estava agora aberto o debate acerca das interpretações verdadeiras e falsas de ideias políticas comuns.” (7) E o MPLA, por escolha – ou imposição - de Agostinho Neto, transformou-se em partido marxista-leninista.
Mas, antes disso, “Agostinho Neto e os seus estavam preocupados com o debate interno, pois as Comissões Populares de Bairro eram grandes centros de debate com a população. E, como seria natural, também estavam preocupados com o problema dos delegados ao Congresso. Havia que evitar que os nitistas chegassem ao Congresso, anunciado para finais de 1977. Com efeito, existia o sério risco de conquistarem os principais lugares de direcção.” (8)
No período pós-independência o MPLA e Neto impuseram ao país, mais do que o partido único, o pensamento orwelliano único, de resto à semelhança do que sempre se passara dentro do Movimento. O próprio Barbeitos afirma que “circunstâncias locais e internacionais fizeram com que, após a independência, a política de informação angolana não divergisse o necessário da prevalecente na ditadura colonial, para que a população adquirisse a capacidade de acesso e de expressão abertos acerca de certo número de coisas que se passavam no país e fora dele,” não se inibindo em referir “a clausura imposta à formação de uma opinião pública livre.” (9)
É assim que, relatando os factos, Birmingham afirma que “o quadro estava montado para um golpe de Estado que se desenrolou com lentidão incrível, brutalidade inexorável e incompetência ridícula durante os seis dias seguintes”: (10)
1. “O quadro estava montado” realmente, mas por alguém que não os supostos conspiradores,
2. pelo que “se desenvolveu com lentidão incrível”, confirmação da inexistência de golpe; que a teoria da conspiração foi montada para legitimar a actuação subsequente das forças da repressão: “O que se passou em Angola terá sido uma provocação, longa e pacientemente planeada, de modo a levar os nitistas a perderem a cabeça e a saírem à rua, justificando assim um contra-golpe, também minuciosamente preparado.” (11)
3. A “brutalidade inexorável” veio da parte das forças repressivas do sistema e não se prolongou pelos “seis dias seguintes” mas por muitos e longos meses. Não se confinou aos nitistas, alargou-se aos seus amigos, familiares, companheiros ideológicos e deu azo a oportunos assassinatos purificadores indiscriminados e em massa.
“David Birmingham é sem dúvida um dos pioneiros da moderna historiografia angolana”, (12) diz Barbeitos mas se, por mero acaso, o seu texto sobre o 27 de Maio chegar a ser tido como Fonte Histórica, bem mais para diante, quando os nossos filhos o lerem terão uma visão totalmente errada desse período da História de Angola:
“Num aspecto, contudo, os conspiradores angolanos adoptaram uma característica perturbadora da revolução etíope, nomeadamente, o assassinato pessoal e a sangue-frio de líderes antagonistas.” (13)
Ficarão com a noção de que os 20 ou 30 mil mortos (14) resultaram da acção dos nitistas e que eles próprios, Nito Alves, Zé Van Dunem e outros, se assassinaram a si próprios.
admário costa lindo
(1) BARBEITOS, Arlindo. Considerações Preliminares, in BIRMINGHAM, David. Portugal e África, Vega Editora, Lisboa, 2003, pg. 14.
(2) Barbeitos, ob. cit., pg.9.
(3) Birmingham, ob. cit., pg. 183.
(4) Notícia; boato.
(5) A este respeito ler o artigo Mitologias.
(6) aliás Sita Valles.
(7) Birmingham, ob. cit., pg.190.
(8) MATEUS, Dalila Cabrita e Álvaro. Purga em Angola, Nito Alves/Sita Valles/Zé Van Dunem, o 27 de Maio de 1977, 3ª edição revista e actualizada, Texto Editores, Lisboa, 2009, pg. 176.
(9) Barbeitos, ob. cit., pgs. 19-20.
(10) Birmingham, ob. cit., pg. 185.
(11) Mateus, ob. cit., pg. 176.
(12) Barbeitos, ob. Cit., pg. 9.
(13) Birmingham, ob. cit., pg. 196.
(14) “Os cálculos sobre o número de mortos variam. Um responsável da DISA ouvido por nós fala em 15.000. A Amnistia Internacional fez um levantamento e avançou com 20.000 a 40.000 mortos. Adolfo Maria, militante da chamada Revolta Activa, e José Neves, um juiz militar, falam de 30.000 mortos. O jornal Folha 8 refere 60.000. E a chamada Fundação 27 de Maio foi até 80.000. No meio termo estará a virtude. Quedemo-nos, então, pelos 30.000 mortos, o número mais referido.” Mateus, ob. cit., pgs. 151-152.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM
ARTIGO 19º

International Society for Human Rights (ISHR)
Hoje, mal abri a newsletter do Correio da Manhã, apanhei com este encharcado:
22 Janeiro 2009 - 02h00
Chefs de culinária e historiadores denunciam falta de folhas em pastas
Torre do Tombo: Receitas conventuais perdidas
António Silva, filho do cozinheiro chef Silva, herdou o gosto pela culinária, principalmente pela pastelaria. Apaixonado pelos doces conventuais, decidiu pesquisar na documentação dos conventos, que está depositada na Torre do Tombo, os segredos da sua confecção. Um mês depois de ter iniciado a pesquisa ficou desiludido. A maior parte das receitas ancestrais tinha desaparecido. "Vi quase todos os conventos de Lisboa e nas listagens de alguns vinham referências aos receituários, mas depois encontrei as pastas vazias", contou, sublinhando que tinha consultado livros que na bibliografia referiam como fonte a documentação original.
Dos comentários à notícia destaco este (andará longe da verdade?):
22 Janeiro 2009 - 12h28 andre couto
Vejam nos sites de leiloes, com sorte acham nos manuscritos ou antiguidades!
Receitas conventuais perdidas ?
Onde anda a Polícia?
Haverá investigação?
E, caso haja, como terminará?
Quem zela pelo acervo da Cultura Portuguesa?
Que país é este?
São questões que gostaria de ver respondidas.
admário costa lindo
Tenho bué de frio
É verdade que tenho, mesmo. Devo confessar que sou um friorento irrecuperável. Diz o meu irmão que faz as vezes de kabasa, [1] “nem parece que nasceste cá!” Quem nos acompanha de perto apercebe-se rapidamente que, efectivamente, nascemos com os azimutes trocados: eu, poveiro, deveria ter nascido em Angola e ele, angolano, é quem mais parece poveiro – nessas coisas do frio e assim! Por isso ando sempre, de inverno e mais, com bué de frio.
Alguns estudiosos referem a palavra francesa Beaucoup [2] como raiz do termo Bué.
A linguagem popular angolana é, reconhecidamente, pela lei do menor esforço empregada na eliminação simultânea de vários elementos de uma palavra ou expressão.
Analisando esta derivação teremos,
beaucoup > bôcu (forma fonética) > bô (apócope).
Uma norma popular, a que chamo a norma rítmica, é a que permite a duplicação da sílaba final de uma palavra, ou o acrescento (paragoge) de um e tónico, aberto (é) ou fechado (ê), por vezes prolongado, ou as duas formas em simultâneo, com o intuito de lhe dar uma expressão carinhosa ou rítmica, como em
Angola > Angolê
e no celebérrimo
Monangamba > Monangambééé, de António Jacinto e Ruy Mingas.
Desta norma podemos estabelecer a evolução completa:
beaucoup > bôcu > bô > boé > bué (metafonia).
A minha dúvida quanto a esta etimologia deve-se à ocorrência temporal. Diz-se que o termo teria surgido depois da chegada a Angola dos refugiados idos do Zaire, após a independência, em finais de 1975 ou princípios de 1976, portanto.
O meu primeiro contacto com a gíria luandense deu-se em 1972, quando abalei do sul para o norte de Angola, em situação laboral. Aquela linguagem atraiu-me de imediato e passei a estudá-la mas, infelizmente, todos os escritos que acumulei se perderam na voragem da guerra, devido ao deambular constante entre Uije, Porto Alexandre, Luanda e Portugal. Não tenho, portanto, documentos de análise para poder justificar que
escutei este termo bué de vezes, desde 1972.
É inquestionável que o termo Bué nasceu na gíria Calú (de Kaluanda, o natural de Luanda), uma linguagem popular, por vezes caracterizada como linguajar marginal. As palavras e expressões desta gíria nascem de corruptelas/derivações/evoluções do Português, a língua oficial e do Kimbundu, a língua étnica da região, mas a linguagem contém também termos intrínsecos e expressões idiomáticas (incluindo, actualmente, palavras/expressões de língua inglesa, maioritariamente norte-americanas) de grupos marginais com características de organização secreta ou similar. A existência do calú justifica-se, ou justificou-se, por duas ordens de razões:
1ª - resistência cultural ao colonialismo e
2ª – hermetismo de auto-protecção/identidade dos referidos grupos.
RuiRamos, que sabe disto como poucos, também considera que a palavra “nada tem a ver com o kimbundu”. [3] Tavez tenha razão,
mas vejamos, atendendo sempre a que a evolução fonética e a evolução semântica podem ocorrer simultaneamente:
1. mbuwe / mbwe, abundância ou fartura; confesso que desconhecia esta forma quimbunda – poderá ser um arcaísmo e os criadores do bué a tenham recolhido dos seus ancestrais; tal como
Rocha, [4] não consegui provas que possam confirmar ou desmentir a sua existência; a existir de facto, é a melhor candidata a mãe do bué;
2. existe em quimbundo o advérbio Buè, sinónimo de Bè, Bèbi e Búebi [5], aonde ou em que lugar ;
3. outro advérbio quimbundo, Bú [6] ou Buí, significa muito ou completamente escuro.
Luanda, pela sua condição de capital, sempre foi uma cidade grandemente cosmopolita. Então, por que não considerar que o termo Bué possa ter sido tomado de outra(s) língua(s), que não o quimbundo? Digo isto porque
4. existe em olunhaneka o radical mBwe [7], que significa cesta grande;
5. muito escuro diz-se mbu /uu/ em umbundo. [8]
Como já antes afirmei, sou de opinião que o significado original nem sempre é determinante. Mas, para isso, é necessário que tenhamos a certeza absoluta da etimologia. Ora, isso está longe de acontecer, no presente caso.
A palavra Bué ou, mais propriamente, a expressão Bué de, é entendida na gíria (hoje alargada, não só a Portugal mas também ao Brasil e a outros países de expressão portuguesa) como - abundante, em grande quantidade, muito, excessivamente, profundamente.
“Eu já nem liguei mais à gasosa, fiquei a olhar a estante com bué de fotos da família do Lima.” [9]
“ Zeca, viste mesmo a carne? Bocados pequenos sebo misturado, mas se cortar aproveita-se aí bué.“ [10]
Eventualmente nenhuma das palavras aqui sugeridas será a raiz de Bué. São, no entanto, pistas para uma tentativa de identificação. Ou nem isso: Bué pode, pura e simplesmente, ser apenas uma invenção do linguajar marginal que,
não obstante,
se internacionalizou.
Penso que a afirmação de J.M. Costa [2] (que pertence à coloquialidade de estratos alargados da população mais jovem portuguesa de zonas suburbanas) foi ultrapassada pela dinâmica da expressão; o próprio também o considerará, porventura. A utilização do termo nos Países de Expressão Portuguesa, com maior incidência em Angola e Portugal, na linguagem coloquial generalizada e na literatura, fez com que a sua primeva suburbanidade seja hoje um mero apontamento histórico.
É por essa razão que não vejo com bons olhos a afirmação de T.A. [11] - que o bué pode ser retirado dos dicionários.
Qu’é qu’é isso meu!? - banzar-se-ia o Jorge. Tás malaico?
O filho do bué
Como justificação de discordância, acrescento três à achega de Rui Ramos – “a língua portuguesa não se constrói só por via erudita desde os tempos dos lusitanos”: [3]
1ª- a condição de razoabilidade e de bom senso é discutível e, quiçá, imensurável por quem quer que seja;
2ª- dicionarizada ou não, eruditismo ou modismo, gíria ou calão, uma palavra pode viver eternamente, não obstante os eruditos, porque a Língua também evolui por via popular.
Um pequeno parêntese: o bué já tem um filho chamado buereré.
Esta derivação (extensão?) poderá estar relacionada com uma característica fonética do quimbundo que atribui ao D duas fonias, de acordo com a região ou o dialecto – tanto pode ser como o D do português digo, ou como o R de aro (razão pela qual o prefixo di também aparece como ri),
como em
Kombaditokua / Kombaritokua (varrição das cinzas, após óbito),
Kitadi / Kitari ou Ditadi / Ritari (dinheiro).
[ Existe uma característica similar, no Umbundo e nas línguas do SW de Angola, que atribui também dois valores, R e L, ao fonema R (ou ao L, como no ovo de Colombo). No final do texto surgirá uma palavra que é um exemplo: Otxiri / Otxili (verdade), como Otxindere / Otxindele (branco, indivíduo de raça branca) ]
Tudo visto, eis então a evolução para buereré:
bué de > bué re > bueré > buereré (norma rítmica).
3ª- Só quem não conhece a história do termo em causa pode partilhar essa afirmação obituária –
– o bué nasceu nos musseques, envergonhado, receoso como santo-e-senha, ganhou o asfalto, chegou à Mutamba, zarpou mar afora pela baía, vadiou na Metrulha, atravessou o Atlântico e ecoa já pelas amazónias da esperança. Ainda assim, da esperança!
Disse você que vai morrer!
Mas de morte morrida… ou de morte matada?
É que, caro senhor, o muadié está a raciocinar em função do português do Putu, e está esquecer o calú!
É uma doença infantil.
A Bíblia
Se bem repararam, tenho citado vários textos do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.
A razão é simples: sou, desde sempre, um internauta assíduo daquela que é (não tenho dúvidas) a Bíblia Virtual da Linguística em Português. Esta Bíblia, contrariamente à outra, não justifica dogmas, apresenta formas várias de observar o mesmo e, por isso, temo-nos dado bem assim. Otxiri muene! [12]
Bem-haja João Carreira Bom, por onde quer que ande,
Bem-haja José Mário Costa.
notas e bibliografia:
[1] De acordo, desta vez abro uma excepção: Kabasa /ss/ designa, em quimbundo, o gémeo que nasce em segundo lugar, sendo o primeiro o kakulu. É bom de ver que não somos gémeos, embora possa parecer que sim.
[2] COSTA, José Mário. Bué de…, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 01.02.1997,
[url] http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=348:
“A origem é angolana e já pertence à coloquialidade de estratos alargados da população mais jovem portuguesa de zonas suburbanas. É nestas áreas que se cruzam as maiores influências étnico-culturais das comunidades africanas residentes na área de Lisboa, em particular. Bué é um calão luandense, que tem o significado do «beaucoup» francês, «muito de»: bué de charros, bué de confusão, bué de preconceitos.”
[3] RAMOS, Rui. Ainda a palavra “bué”, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 21.01.2003:
[url] http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=11100:
“parece que os dicionários portugueses agora incluem palavras do calão luandense. Óptimo, isto quer dizer que a língua portuguesa não se constrói só por via erudita desde os tempos dos lusitanos, «bárbaros», romanos, gregos, árabes..”
“quem introduziu esse calão de Luanda (que nada tem a ver com o kimbundu) em Lisboa foram os jovens luandenses”
“Parabéns aos jovens luandenses da diáspora que conseguiram o autêntico milagre de introduzir calão luandense no mais conceituado dicionário português.”
[4] ROCHA, Carlos. O uso de bué (= «muito»), novamente, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 10.11.2006:
[url] http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=18744:
“no Dicionário Etimológico Bundo-Português do P. Albino Alves (1947), encontro a forma mbuwe, que significa «abundância, fartura». Contudo, não consegui confirmar noutras obras se é esta a origem do bué português nem pude saber quais eram as propriedades sintá(c)ticas e semânticas da forma «mbwe».”
Nota: este é o texto (aliás, parte do) publicado no sítio, conforme acesso de 14.01.2009. Fiquei com dúvidas – a palavra é «mbuwe» ou «mbwe»?
[5] MATTA, J. D. Cordeiro da. Ensaio de Diccionario Kimbúndu-Portuguez, Casa Editora António Maria Pereira, Lisboa, 1893.
[6] NASCIMENTO, J. Pereira do. Diccionario Portuguez-Kimbundu, Typographia da Missão, Huilla, 1903.
[7] BONNEFOUX, Pde. Benedicto M. Dicionário Olunyaneka-Português, Missão da Huíla, Sá da Bandeira, 1940.
[8] DANIEL, Rev. Henrique Etaungo. Ondisionalu Yumbundu, Dicionário de Umbundo, Umbundo-Português, Edições Naho, Lisboa, 2002.
[9] ONDJAKI. Os da Minha Rua, Caminho, Lisboa, 2007, p. 20.
[10] MONTEIRO, Manuel Rui. Quem Me Dera Ser Onda, Edições Cotovia, 6ª edição, Lisboa, 1991, p. 49.
[11] T.A. Implementar/Bué, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 11.10.2001:
[url] http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=9390:
“«Bué» é um modismo juvenil, e é bem provável que em futuras edições venha a ser retirado, utilizando-se o único mecanismo de eliminação razoável: o bom senso”
[12] É como se diz em umbundo, nhaneca e outras línguas do SW- É mesmo verdade! ou (expressão genuinamente angolana) Juro com Deus!
admário costa lindo