Quando pensámos introduzir, no primeiro número do
Angola Haria, a regra de que a seguir se trata, o jornal estava já pronto para distribuição. Resolvemos, assim, manter a norma usualmente tida como válida.
Uma das características das línguas da família Bantu é a nasalação de certas palavras iniciadas por consoante. A norma internacionalmente aceite para assinalar este facto é antepor-se um “
N” (ou “
M”) à consoante inicial. Por vezes essa grafia apresenta um apóstrofo entre as duas consoantes (o que achamos correcto por se entender que o “
N” não faz parte da palavra). Mas isso nem sempre acontece.
O aportuguesamento de termos das línguas étnicas angolanas nem sempre apresenta grandes transformações. Por vezes essas palavras sofrem apenas uma adaptação morfológica/diacrítica: acomodação da grafia sónica ao Português escrito. Aconteceu com
Kamba =
Camba e com
Misoso =
Missosso. Aconteceu também, por via defeituosa, com
Ngaji =
Negaje.
Aquela norma (a da nasalação) tem dado azo a inúmeros equívocos, por parte de quem não é erudito em linguística. Alguns deles tornaram-se erros históricos, como é o caso de Negaje, cidade da província angolana do Uije. Negaje deriva do termo quicongo
Ngaji, que significa
dendém. O aportuguesamento incorrecto de
Ngaji /
NGaji /
N’Gaji em Negaje, a nosso ver, deriva precisamente da norma utilizada.
O aportuguesamento oral nunca pode provocar erros deste jaez, uma vez que na linguagem falada não há sinais gráficos, apenas sons. Os erros nascem com a transformação dos fonemas em sinais escritos. Pela pronúncia vernácula, os fonemas sem sinais, a palavra deveria ter evoluído para
Angaje,
Ingaje ou, quando muito,
Engaje. Como
Ngola se transformou em
Angola.
E se a grafia adoptada tivesse sido outra?
~Gaji, por exemplo! Teria acontecido o mesmo? Não há resposta possível, uma vez que esta norma nunca foi utilizada, mas não custa a crer que não. Parece-nos ser esta a forma mais correcta de representar esta nasalação. Os leigos, que nunca pensaram na existência de consoantes nasais, mesmo esses nunca transformariam
~G em
Neg.
É assim que, a partir deste número do Glossário do
Angola Haria, salvo quando se proceda a citações de outros autores e obras, a nasalação das consoantes iniciais será sempre representada por um til (
~ ) antecedendo a consoante em causa. Logicamente, este sinal de nasalação transforma-se em “
m” ou “
n” no interior das palavras compostas.
Outra questão relacionada com a nasalação em “
m” e “
n” diz respeito à colocação dessas palavras por ordenação alfabética: deveriam seguir sempre a ordem da consoante verdadeira e não a dos símbolos “
m” e “
n”, o que é raro verificar-se.
NGaje deveria ser, sempre, ordenada em “
G” e não em “
N”. Com a
regra do til, essa questão desaparece.
Depois de consultado este Glossário, comparando-o com o anterior, o leitor aquilatará da pertinência desta questão.
admário costa lindo